Escândalo faz Paraguai anular acordo de Itaipu com Bolsonaro

Jornais paraguaios ‘ABC Collor’ e ‘Ultima Hora, denunciam que empresa ligada a Bolsonaro tiraria proveito do acerto secreto, através de exclusividade na venda do excedente de energia elétrica do Paraguai no mercado brasileiro

Com cartazes com dizeres como “Itaipu não se vende, se defende”, paraguaios exigem impeachment do presidente Abdo Benitez – foto AFP

O governo paraguaio anunciou na quinta-feira, dia 1º, a anulação do acordo firmado no dia 24 de maio pelos presidentes Abdo Benitez (Paraguai) e Bolsonaro, após o encontro entre os dois, ocorrido no final de fevereiro.

A anulação do acordo lesivo ao Paraguai – que perderia US$ 200 milhões até 2022 – e, segundo denúncias de jornais paraguaios, lesivo também ao Brasil, pois encareceria a energia aqui, ao atender a interesses que seriam ligados ao próprio Bolsonaro, aconteceu depois de uma crise política que levou o presidente paraguaio à beira da perda de seu mandato, por impeachment.

RENÚNCIAS EM SÉRIE

A crise estalou no dia 24 de julho, quando o presidente da ANDE (Administração Nacional de Eletricidade) do Paraguai, Pedro Ferreira, anunciou sua renúncia, alegando divergência com o acordo, que tratava, entre outros aspectos, da compra de energia da usina de Itaipu.

Ferreira considerou o acordo “alta traição” aos interesses paraguaios e “extorsão financeira”.

O Senado do país vizinho, assim que a renúncia de Ferreira foi anunciada, pediu esclarecimentos sobre o acordo, até aquele momento mantido em sigilo até mesmo diante do parlamento paraguaio.

Logo após a renúncia do presidente, seguiu-se a de Fabián Cáceres, gerente técnico da empresa estatal.

No dia 29, também anunciaram suas renúncias o ministro do Exterior, Luis Alberto Castiglioni; o embaixador paraguaio no Brasil, Hugo Saguier e o presidente da Administração Nacional de Eletricidade (ANDES), Alcides Jimenez (este último que havia assumido no lugar do demissionário, Ferreira).

EXTORSÃO

Os aspectos apontados como lesivos ao Paraguai incluem a elevação da parcela de energia elétrica que este é obrigado a adquirir da Itaipu Binacional. Pelo acordo, agora anulado, o Paraguai, que determinava o montante de potência média adquirida anualmente, passaria a ter de acatar uma aquisição determinada no novo acordo, passando, ano a ano, de 1.374 Mw em 2019 até chegar a 1924 Mw em 2022.

Além disso, os jornais e entidades paraguaias denunciam que o “item 6” do contrato atual, que dá ao Paraguai o direito de comercializar diretamente a energia excedente no Brasil, estava excluído no novo acerto.

O Paraguai passaria a ter a venda de energia obrigatoriamente intermediada por uma empresa brasileira.

Os senadores paraguaios denunciam que estes elementos do acerto – feito às escondidas dos brasileiros e paraguaios – implicariam em um encarecimento anual de US$ 200 milhões na energia comercializada no Paraguai.

Em meio às manifestações convocadas pelo Sindicato dos Trabalhadores da ANDE, protestos de entidades estudantis, de professores, da Conferência Episcopal do Paraguai, entre outros, congressistas do país começaram a organizar um processo de impeachment do presidente que, diante da pressão, anunciou, na quinta-feira, dia 1º, a anulação do acordo.

LOBBY BOLSONARISTA

Acordo assinado com Bolsonaro em Brasília provocou demissões em série e quase leva o presidente paraguaio, Abdo Benitez, a afastamento por impeachment (foto: Agência Brasil)

Agora, os jornais paraguaios denunciam que um lobby bolsonarista, incluindo o advogado José Rodríguez González, assessor jurídico do vice-presidente Hugo Velazquez e filho de María Epifania González, secretária de Prevenção de Lavagem de Dinheiro ou Bens do Paraguai (ela também acaba de renunciar ao cargo, segundo informa o Correio Braziliense no dia 1º), atuando em conjunto com o suplente de senador pelo PSL de São Paulo, Alexandre Giordano, pressionavam para que, com a exclusão do item 6, a Léros Comercializadora de Energia se tornasse a revendedora exclusiva da energia excedente do Paraguai no Brasil.

Segundo o jornal, o advogado Gonzalez afirmou que “em todas as conversações que tivemos com esse grupo empresarial brasileiro, a primeira coisa que fizeram é dizer que têm o apoio do alto mando brasileiro para conseguir as autorizações de importação de energia”.

O jornal ABC vai além e conecta a exclusão do “item 6” aos interesses de Bolsonaro. Diz que em 23 de maio, portanto, na véspera do dia em que o acordo foi assinado, o lobista paraguaio González mandou uma mensagem aos diretores da ANDE em nome do próprio presidente Abdo Benítez e de seu vice, Hugo Velázquez. Nela, solicita a exclusão do item do novo acordo.

Na mensagem, ainda segundo o jornal, González diz que o item 6 deveria ser excluído “porque em conversas com o mais alto comando do país vizinho, concluiu-se que não é o mais favorável, a fim de proteger o manuseio prudencial da informação para que a operação em andamento seja efetivada com o maior sucesso”.

Ainda segundo o ABC, o advogado do vice-presidente paraguaio solicitou um encontro entre diretores da ANDE com a empresa Léros “para uma breve reunião sobre a compra de energia excedente para o mercado brasileiro”, que seria intermediada agora pela empresa brasileira.

O suplente de senador Alexandre Giordano (PSL-SP) teria se apresentado a executivos da ANDE como representante da Léros em Ciudad del Este, que tem Foz do Iguaçu como a cidade brasileira mais próxima.

Ao “ABC Color”, o advogado José Rodríguez González disse que esteve em uma reunião, em maio, na qual Giordano se apresentou “não somente a mim, mas a todos os presentes” como representante do governo brasileiro.

Giordano diz não se lembrar se a reunião foi “em fevereiro ou em maio”.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, Giordano confirmou ter, de fato, participado de uma reunião no Paraguai com a ANDE, ao lado de um representante da Léros, mas disse que o encontro foi para tratar de um leilão de energia elétrica aberto pela estatal paraguaia.

Apesar de sua condição de suplente de senador pelo mesmo partido do presidente, ele negou ter usado, no encontro, sua influência com a família Bolsonaro: “Meu contato com a família Bolsonaro é zero”, e prosseguiu: “Fui lá em interesse da minha empresa. Não tem nada a ver com o acordo de Itaipu”.

Giordano tem três empresas, uma de “extração de areia”, outra de “montagem de estruturas metálicas” e mais uma “que mexe com madeira”, segundo declarou em entrevista à revista Piauí. O que essas empresas têm a ver com o leilão da energia de Itaipu, ele não explicou.

Nessa entrevista, o suplente de senador pelo PSL apresentou duas versões diferentes para sua presença na reunião com a ANDES:

  1. Perguntaram se minha empresa tinha interesse na infraestrutura de torres metálicas, caso o governo paraguaio fosse vender [energia a empresas brasileiras]”.
  2. Na verdade eles nem perguntaram de qual empresa eu era, ninguém me perguntou nada. Fui como empresário escutar. Imagina você vai numa palestra, o cara está falando e você está ouvindo“.

Giordano reclamou muito de ser chamado de lobista:

Agora ninguém me vê mais como um empresário de sucesso, me vê como um político. Tudo que eu fizer agora eu estou fazendo lobby? É até desmerecimento a alguém como eu, que começou vendendo hot dog aos 12 anos com a mãe na [rua] 25 de Março. É brochante.”

O estilo bolsonarista é reconhecível.

Do HP

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