General explica a paranoia dos militares

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O general Bolívar em três momentos distintos: ainda cadete, em 1964 e hoje Fotos: Arquivo Pessoal/Reprodução

Extra Classe

ENTREVISTA | BOLIVAR MARINHO SOARES DE MEIRELLES

Por Marcelo Menna Barreto

Com a propriedade de quem veio de uma família com tios participantes do movimento tenentista, um que foi lutar na Guerra Civil Espanhola e outro que participou do levante da Aliança Nacional Libertadora em 1935, o general de Brigada reformado Bolivar Marinho Soares de Meirelles diz: “Eu acho que eu entrei pra escola de cadetes já rebelado”. Expulso do Exército seis meses após o golpe de 1964, por não concordar com a ruptura institucional, fez sua carreira fora das Forças Armadas até ter o reconhecimento de sua patente devida pelo Supremo Tribunal Federal. Uma carreira, aliás, bem extensa. Licenciado em Ciências Sociais, mestre em Administração Pública, doutor em Ciências em Engenharia e pós-doutor em História Política, o general Bolivar diz ter uma dívida com o povo brasileiro: apresentar com clareza o que foi o período de exceção vivido no Brasil de 1964 a 1985. “Quem me fez general, na realidade, foi o povo. Foi dentro das instituições da democracia e do Estado de Direito que eu cheguei a general”.

Extra Classe − Como o senhor viu a determinação do presidente Bolsonaro para que os quartéis comemorassem a data do 31 de março? Bolivar Meirelles − Eu acho que isso foi um absurdo! Inclusive utilizando recursos do povo brasileiro para festejar algo que foi nitidamente um golpe de Estado, reconhecido por quase todos os historiadores. É uma vergonha para o Brasil esse “festejo” aí do capitão Bolsonaro. Mas o absurdo e a vergonha para o Brasil também é internacional e caracterizou-se no repúdio à visita que ele fez ao Chile, relembrando os tempos do Pinochet, festejando, não é? E no Paraguai também com aquele eterno ditador, o Strossner. Um homem que disse que queria 30 mil mortos no Brasil e defende tortura, e torturador é um retrocesso muito grande.

EC – O senhor diz que é de uma época que ainda existiam militares nacionalistas. O que aconteceu com eles? Meirelles − Foi feita uma raspagem ideológica com o golpe de 1964 que expulsou das Forças Armadas, por reforma, por demissão, vários quadros militares. Eu saí como segundo-tenente, com 24 anos de idade. Quer dizer, o Brasil investiu em mim e eu fui fazer a minha carreira que chegou a general de Brigada aqui fora, reconhecido pelas leis brasileiras até no Supremo Tribunal Federal. Por isso eu tenho uma dívida com o povo brasileiro: colocar essas questões com clareza porque quem me fez general, na realidade, foi o povo. Foi dentro das instituições da democracia e do Estado de Direito que eu cheguei a general.

EC – E antes do golpe? Meirelles − Existiam militares nacionalistas no pré-golpe de 1964 e, se olharmos a história do Brasil, grande parte da luta pelo monopólio estatal do petróleo foi no Clube Militar. Ali se tinha um general Horta Barbosa, o líder da corrente que propugnou a luta pela implantação da Petrobras. Mas por outro lado, entreguista, você também via um Golbery do Couto e Silva, o general Juarez Távora que, com receio do “comunismo internacional”, como eles colocavam, pretendiam entregar nossas riquezas estratégicas ao império norte-americano. Uma visão consolidada no golpe de 1964 pela figura, ao meu ver, execrável, do marechal Castello Branco, que era um entreguista notório.

EC − Coexistiam, então? Meirelles − Sim. Mas veja só: entre os golpistas de 1964 também tinha uma corrente que era contra o entreguismo. O próprio Geisel, que era uma pessoa de direita e que matou grande parte dos dirigentes do PCB − aliás partido que não participou da luta armada − tinha um viés nacionalista. Ele acabou com o acordo militar Brasil-Estados Unidos e fez acordo com a Alemanha para implantar a questão nuclear no Brasil. Então, existem essas contradições dentro das Forças Armadas.

EC – O senhor diz que não vê hoje nenhum oficial de patente superior confrontar a chamada corrente entreguista. O que houve com a mentalidade nacionalista dos militares brasileiros? Meirelles − O que houve nas Forças Armadas foi um processo de lavagem cerebral. A realidade é esta. No meu tempo de cadete, nos idos de 1959 a 1962, eu já sentia que estava havendo uma mudança. Quando entrei em 1956 na preparatória de cadetes em São Paulo, a tese principal de conflito era do Brasil com a Argentina. Veja que imaginação! Depois com o passar do tempo, quando Fidel Castro faz a revolução em Cuba, reavivam a tese do anticomunismo e vem sendo criada uma expectativa de que inimigos internos seriam potenciais formadores da revolução no Brasil. É uma mentira deslavada que vem sendo repetida aos jovens não só nas escolas militares de nível superior, mas também na formação dos praças.

EC − A ideia do “inimigo interno” vem daí, então? Meirelles − Na realidade, esse resíduo anticomunista é nítido na formação do militar desde 1935, quando há o levante da Aliança Nacional Libertadora, onde inventaram que mataram gente dormindo nos quartéis para tumultuar. Ora, já havia acontecido no Nordeste dois levantes, já tinha arrebentado um movimento nos quartéis na Praia Vermelha; ninguém estava mais dormindo. A tropa estava em alta prontidão e vigilância. Houve heróis dos dois lados.

EC – E a dita “Revolução de 1964”? Meirelles − Não houve revolução nenhuma! Não se mudou o estabelecimento do regime burguês; o que eles mataram foi a democracia burguesa e o Estado de Direito. Agora − veja você a contradição − a definição de guerra revolucionária era traçada exatamente para atacar os levantes de caráter marxista-leninista, como eles colocavam; mas quando deram o golpe de Estado em 1964, não quiseram assumir a posição de golpistas. Chamaram de revolução. Realmente foi um golpe de Estado formulado pelo império norte-americano, com os grandes monopólios nacionais e internacionais vinculados com as estruturas das Forças Armadas no Brasil e na América Latina, onde ocorreram vários golpes.

EC – O senhor fala em outras contradições também. Quais? Meirelles − Antes eles (os golpistas) diziam que defendiam o pensamento ocidental cristão. Mas perderam o cristão porque os cristãos também, alguma parcela deles, se jogaram na luta em defesa da liberdade dentro da pátria brasileira. Eu não sou religioso, mas, por exemplo, alguns dominicanos heroicos que nada tinham de marxista-leninistas, vinculados ao pensamento de Jesus de Nazaré e daqueles que militavam com ele contra o Império Romano e contra o domínio das camadas altas da sociedade na defesa do povo, desmascararam essa ideia de guerra de característica marxista-leninista. O que aconteceu com esses dominicanos? Alguns foram massacrados, como o frei Tito que acabou morrendo na França. Então, como não poderia mais ter a característica de uma luta contra o comunismo, aí então inventaram o termo subversão. Os subversivos.

EC − Na Argentina e no Chile há exemplos de militares que foram parar atrás das grades após as respectivas ditaduras. Qual a lição de casa que esses países fizeram que o Brasil não fez? Meirelles − Nós não fizemos a revisão desse período no Brasil. A anistia que foi feita em 1979 foi uma anistia negociada com o governo Figueiredo. No Chile, na Argentina, os torturadores foram presos. Aqui no Brasil, nenhum desses generais e coronéis da ditadura foram responsabilizados. Até o Supremo Tribunal Federal quis a anistia como um esquecimento. Isso ainda é uma mácula na história do Brasil. Veja só, esse capitão Bolsonaro e o próprio vice-presidente defendem a figura do torturador Ustra! Um cara que massacrou, que torturou mães na frente de filhos; um tarado! E esse capitão ainda vai pra fora defender torturadores de lá. Isso pega mal!

EC − Na formação de nossos militares ainda está incutida a ideia de que as Forças Armadas salvaram o país do comunismo em 1964. Por que após tantos anos de redemocratização isso continua? Meirelles − Porque nós fizemos uma transição negociada. Nós não derrotamos, na realidade, os golpistas de 1964. Não houve uma interferência nas formações militares de forma a apagar essas questões. Você teria que ter uma visão crítica, histórico-crítica dentro das Forças Armadas. Não só mudança de currículo e programas, mas também de instrutores. Não adianta só mudar a forma, mudar o conteúdo, sem saber quem é que vai dar as aulas.

EC − Diz-se que militares brasileiros que participaram na campanha da Segunda Guerra Mundial voltaram da missão com uma outra visão de mundo: uma geração que participou ativamente dos processos políticos que culminaram com o golpe de 1964. Qual a sua análise? Meirelles − Olha, precisou vir o presidente dos Estados Unidos aqui, o Roosevelt, para fazer o Brasil se colocar contra o Eixo, contra o nazi-fascismo. Alguns foram pra guerra, alguns se submeteram. O Goes Monteiro era simpatizante do nazi-fascismo, o Dutra era, o Filinto Muller era e o Getúlio era aquele vacilante que ora namorava com um, ora com outro. Ganha a guerra, dois fenômenos vão se dar. Um é a composição de alguns quadros tipo Castelo Branco, profundamente vinculado ao pensamento norte-americano. Então, é claro que, quando se sai daqui, deixando o Estado Novo instalado, um regime ditatorial ainda remanescente do Getúlio, a imaginação de superação disso vai se dar.

EC − Mas Getúlio inicia nesse período um distensionamento do Estado Novo, não? Meirelles – Sim. O Getúlio declara o fim do Estado Novo e abre as prisões. O Luís Carlos Prestes é colocado em liberdade em 1945 e tem um encontro − até articulado pelo meu tio, Silvio Meirelles, que tinha saído há pouco tempo da cadeia − com o Eduardo Gomes e Juarez Távora. Queriam que o Prestes participasse de um movimento de derrubada do Getúlio. O Prestes diz então: eu passei esses anos todos preso e vocês fizeram as suas carreiras; agora que o Getúlio deu anistia política e está liberando a formação de todos os partidos, até do Partido Comunista Brasileiro, abre eleições gerais, com uma Constituinte, como é que eu vou participar dessa derrubada? Claro que o Castelo Branco, que tinha vínculos formados com os comandos norte-americanos, cujo embaixador era também um dos articuladores da derrubada de Getúlio, vem com essa ideia de participar.

EC – O senhor falou de dois fenômenos. Qual o segundo? Meirelles − O grande prestígio com que a União Soviética sai da guerra. Na realidade, quem primeiro chega ao território alemão, que vai libertando com a passagem do Exército Vermelho ali é a União Soviética. Perderam 20 milhões de pessoas dentro do processo da guerra. Falam de 6 milhões que morreram nos campos de concentração nazistas, os judeus em especial, mas pouco se fala das baixas na União Soviética.

EC – Quais as reações a esse prestígio? Meirelles − Passados os tratados pós-Segunda Guerra, o Churchill faz um discurso na cidade de Fulton, nos Estados Unidos, já caracterizando o clima de Guerra Fria. Há um rompimento e aí começam a ser elaboradas todas as teorias anticomunistas que já vinham de 1935 aqui, mas mais acirradas contra um companheiro de lutas para derrotar o nazi-fascismo que vira o adversário colocado frente aos Estados Unidos, aliás, sempre retardatários ao entrar nas guerras mundiais. Na primeira e na segunda, quando acabam fazendo aquele crime com ela praticamente acabada: trocam o bombardeio de Pearl Harbor por duas bombas atômicas jogadas no Japão. Na realidade, uma mensagem que queriam dar para a União Soviética que rapidamente também foi lá e construiu suas bombas atômicas.

EC – E no Brasil? Meirelles − Em 1948, depois da guerra, através dos generais Albino e Cordeiro de Farias, que foram golpistas também na derrubada do Getúlio de 1945, é criada a Escola Superior de Guerra, dentro da matriz do War College norte-americano. Só que lá nos Estados Unidos, a formação vai do mundo civil, dos empresários, para as Forças Armadas; aqui foi transportada das Forças Armadas americanas para as nossas Forças Armadas. O Exército, principalmente, passa a ter duas características. Uma, de instrumento de repressão do Estado e, outra, de aparelho ideológico, porque passa a ser um instrumento que influenciou também quadros civis. Carlos Lacerda tirou curso na Escola Superior de Guerra, que é aberta a civis também. É aí que a conspiração, antissoviética, vai se colocando na polarização entre as duas potências que saem da Segunda Guerra.

EC − Hoje, temos uma leva de militares nos postos mais importantes da República que passaram pela missão brasileira no Haiti. Como o senhor vê isso? Teriam eles também retornado com outra visão de mundo? Meirelles − Eu tenho a impressão de que isto é uma questão de geração. O militar também tem essa angústia do nada fazer. Não tem missão, não tem guerra; não tem o que fazer. Está sempre se preparando para algo que não vem. Então fica inventando guerras também. Esse é um quadro mais amplo que se coloca. A missão no Haiti é um fato, mas é um quase alinhamento militar brasileiro ao pensamento dessa, que eles chamam, democracia ocidental cristã. O que Cristo tem a ver com o raio da democracia dita burguesa? A democracia burguesa é um estágio, uma passagem da luta de classes permanente da burguesia contra o trabalhador. Quando eles não conseguem resolver no estágio da democracia burguesa, eles dão golpes, como aqui, na Argentina, no Chile. Eles conseguiram conviver com a democracia de Allende? Allende não estava fazendo revolução. Ele era um socialista no governo, mas ele não estava fazendo uma revolução socialista no Chile. Jango era um trabalhista no governo, mas não estava fazendo uma revolução socialista. Isso é uma visão distorcida.

EC − O senhor falou agora da “angústia do nada fazer”. Por que, então, com toda essa incitação de Trump, Bolsonaro e seus filhos e os militares brasileiros não querem uma intervenção na Venezuela? Meirelles − Primeiro, que uma guerra contra a Venezuela será um Vietnamização que pode ocasionar guerras nas retaguardas dos países agressores. Quem diz que não vai haver movimentos contrários no Brasil? Quem diz que não vai haver movimentos contrários na Colômbia? A Colômbia teve as Farcs, com seus 50 anos de luta. E uma luta de floresta também. O americano, se entrar lá, vai ter “presunto” americano − presunto no sentido de morto americano − devolvido aos Estados Unidos. Vai morrer muita gente. Isso numa questão de curto prazo. Depois, os militares brasileiros têm uma certa razão. Eles sabem que não têm condições de confronto hoje com as Forças Armadas venezuelanas, sem contar que o povo venezuelano está armado. A milícia na Venezuela tem outra característica. Não é essa milícia de vagabundos que a gente tem aqui, com que o senador filho do presidente está nitidamente vinculado. Lá a milícia é civil armada como as milícias libertárias de Barcelona na guerra civil espanhola.

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