‘O Exército matou meu filho’ – Denuncia mãe de sargento mineiro morto em quartel

“O Exército sempre foi o sonho dele, assistia essas propagandas de convocações para o serviço militar com os olhinhos arregalados. Eu só quero justiça pelo meu filho, para que nenhuma mãe passe pelo que eu passei. Eles [o Exército] torturaram e mataram o Dudu”.

O desabafo que abre esta reportagem é da professora mineira Conceição Barbosa Torres da Costa, que viu o filho Eduardo Barbosa Torres da Costa, de 23 anos, entrar em depressão, ser espancado e torturado na carreira militar. Ao BHAZ, a mãe do sargento Costa, o Dudu, pede que os culpados sejam punidos exemplarmente.

A família é de Além Paraíba, na Zona da Mata, mas mora em Juiz de Fora, na mesma região. Além de Eduardo, Conceição e o marido têm outros dois filhos, um outro de 23 anos e um de 13. “A nossa vida era complicada, a gente sem emprego, meus filhos passaram uma infância difícil. Às vezes não tínhamos pão para dar, eles tinham que merendar na escola mais de uma vez. Me doía não poder dar o que comer”, conta a mulher.

A mãe da vítima lembra que o filho sempre foi muito inteligente. “Ele decidiu realizar o sonho de entrar para o Exército, mesmo estudando em colégio público, que não era muito bom. Em 60 mil candidatos, ele passou na posição 214, em 2016. Além de realizar o sonho, ele também queria uma forma de conseguir um dinheiro rápido para nos ajudar em casa. Como a nota dele foi alta, ele conseguiu fazer o básico no quartel de Juiz de Fora”, relata.

O jovem formou no básico em 2018 e decidiu tentar ser paraquedista, no Rio de Janeiro. “Ele fez o teste e passou, estava muito animado com tudo. Ele chegou no curso, alugou um apartamento para dividir. Um amigo contou para ele sobre as dificuldades do Exército, em relação a hierarquia. Ele me contou que quem usava o coturno preto era humilhado, só marrom era bom. O amigo contou que sempre era humilhado pelos colegas, o que sensibilizou o Eduardo”.

Primeiro trauma

Em um dia de sol forte no Rio de Janeiro, os militares se exercitavam correndo, de farda, em uma pista, por volta das 11h. “O amigo dele não aguentou, caiu muito cansado e meu filho parou para ajudá-lo. O superior dele já ficou com raiva, disse que deveria ter deixado ele lá. Os outros militares começaram a ridicularizar o Dudu, falaram que ele era um fraco, viado, bicha. E esse amigo morreu três dias depois, por conta do esforço extremo”.

Eduardo sempre contava tudo que ocorria para a mãe, já que eram grandes amigos. Em janeiro de 2019, ele disse que estava com a perna ruim, e se desligou do curso de paraquedista. “Achei ele meio triste, diferente, mas achei que era por conta do desligamento mesmo. Depois disso, ele precisou se apresentar novamente ao Exército, e foi enviado para Joinville (SC). Ele foi servir na Infantaria e lá que as coisas pioraram muito”, desabafa Conceição.

Depressão aumentou

“O quadro de depressão foi aumentando. Ninguém falava com ele, não tratavam ele bem. Um dia ele me ligou e disse: ‘Mãe, eu estou ficando deprimido, estou pensando cada coisa ruim’. Meu coração apertou na hora, perguntei se ele queria que eu fosse pra lá, mas ele achou melhor não. Disse para ele ir ao médico do quartel, explicar o que estava sentindo”, continua a mãe de Eduardo.

O filho seguiu o conselho da mãe, procurou o médico e contou tudo. “Ele me disse que o médico ouviu tudo, foi bem solícito e orientou sobre o que fazer. Mas, no dia seguinte, o quartel inteiro sabia do que ele tinha conversado com o médico. Falaram que ele era gay, que estava sofrendo por um rapaz, que ele tinha um caso. As coisas só pioravam”, continua Conceição.

Família consegue psiquiatra

Sem auxílio dentro do Exército, a família resolveu procurar um médico indicado por conhecidos, que atua com jovens militares. O psiquiatra Bruno Cruz explica que o primeiro contato com Eduardo foi em agosto de 2019.

“Ele foi diagnosticado com transtorno de estresse pós-traumático ou de adaptação. Muito se deu ao fato da revivência do trauma, da intensidade que ele vivenciava aquela situação, as questões da lembrança à medida que ele via algo referente ao Exército”, explica o médico.

Logo na primeira consulta, pelo estado do paciente, o médico já pediu um afastamento de 40 dias. “Ele foi trazido ao consultório, foi feito o diagnóstico que era muito óbvio, que ele não poderia ter contato com o ambiente militar, o trauma dele era vinculado a essa circunstância. Na minha experiência com o ambiente militar, e com outros jovens que sofreram questões semelhantes, me dizia isso muito claro. Pedimos o afastamento, que não foi cumprido. A consequência foi a morte dele”, relata o médico.

Mais humilhações

Segundo a mãe de Dudu, o pedido de afastamento também previa a suspensão do porte de arma, mas somente o segundo item foi cumprido. “Ele continuou trabalhando, mas agora sem a arma, o que aumentou ainda mais a humilhação sofrida por ele. Eles [oficiais do Exército] acharam que ele estava fingindo, fazendo corpo mole”, relata Conceição.

Eduardo tomava remédios controlados, como antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores de humor. “No dia 7 de junho ele tentou suicídio dentro do quartel. Nos laudos falaram que ele não poderia ficar em ambiente militar, por conta do estresse pós-traumático. Isso já tinha sido diagnosticado uma vez, e depois novamente pelo Dr. Bruno, mas novamente não fomos atendidos”, continua a mãe de Eduardo.

Surto e prisão em Juiz de Fora

No dia 31 de dezembro, Eduardo teve um surto. “Ele saiu correndo pelas ruas de Juiz de Fora, se jogando nas frentes dos carros. A polícia interveio, prendeu meu filho e bateu muito nele. Quando chegamos na delegacia, já tinha um coronel do Exército lá. Meu filho estava batendo a cabeça na parede, muito descontrolado. Eu peguei e deitei ele no meu colo, para se acalmar um pouco”, conta Conceição.

Eduardo conversou com a mãe e disse que não queria sair da delegacia algemado. “Ele virou e falou comigo: ‘Mãe, não sou bandido’. Eu disse que ele iria para o hospital, para se cuidar. Ele havia se acalmado. Mas aí o coronel apareceu e começou a agredir meu filho verbalmente, falou que ele era um lixo para o Exército. Eles se atracaram, bateram muito no meu filho, na minha frente. Deram voz de prisão para meu filho, meu marido e meu outro filho. O Eduardo desmaiou, ninguém fez nada”, desabafa.

Para o psiquiatra que o acompanhava, Eduardo teve um quadro de ansiedade muito intenso, que desencadeou o surto. “Ele pode ter tido uma revivência do trauma. Com isso, ele teve uma atitude mais agressiva, que culminou no ocorrido e na prisão dele”, explica Bruno Cruz.

Conceição filmou o momento em que o filho foi preso. “Falaram que quando chegasse no quartel, iriam ‘moer’ ele. Já cheguei filmando, gritando, xinguei tudo que pude”, lembra a mãe de Eduardo.

Em uma audiência de custódia, no mesmo dia, ficou definido que o jovem não poderia deixar Juiz de Fora. Contudo, o Exército teria levado Eduardo, sem permissão, para o HCE (Hospital Central do Exército), no Rio de Janeiro. “Ele ficou preso, algemado em uma cama, durante quatro dias. Só tiravam a algema para ele tomar banho e fazer suas necessidades. Ele acabou perdendo a sensibilidade de uma das mãos”, conta.

O advogado José Carlos Stephan, especialista em direito militar há 29 anos, que atendeu Eduardo desde agosto, diz que participou da audiência de custódia. “Informei em ata ao juiz que ele não poderia ser entregue ao Exército e muito menos voltar ao Rio de Janeiro, pois ele poderia tentar novamente contra a própria vida e morrer”, explica.

“Não foi me dado ouvido e ele foi conduzido ao hospital de Juiz de Fora, onde a gente esperava que fosse feito o tratamento. No meio do caminho, sem autorização judicial, sem informar a família, sem notificar a mãe, sem me informar, já que sou o procurador, o levaram para o HCE, no Rio de Janeiro. Lá ele ficou isolado, não se sabe o tipo de tratamento que teve, provavelmente nenhum. Aí aconteceu a morte dele”, relata Stephan.

De acordo com a mãe de Eduardo, o psiquiatra Bruno Cruz teria advertido que Eduardo precisava ser internado. “Mas ele não foi. Colocaram meu filho em uma prisão dentro do Exército, não colocaram na ala psiquiátrica. Era uma prisão, dentro de uma cela olhando para o teto. Não estava tomando a medicação correta”, continua.

O jovem ficou no local até o dia 30 de janeiro deste ano, quando a família foi informada da morte, por suicídio. A família contesta a versão do Exército. “Não tinha nada dentro daquele quarto que ele pudesse usar para se matar. Só entregaram o corpo quase três dias depois. Meu filho estava todo maquiado, conseguimos ver um corte na sobrancelha. Eles mataram meu filho dentro do exército, eu afirmo isso. A ditadura existe ainda dentro dos quartéis”, relata.

Para a mãe que perdeu o filho, o sentimento é de ódio. “Muita revolta. Eu quero que eles sejam punidos. A polícia do Exército espancou, torturou meu filho. Quero vingança, quero justiça. Eu preciso mostrar isso para as outras famílias. Eu não tenho medo, não tenho mais nada a perder. Ficam rondando a porta da minha casa, um carro com insulfilme. Sei que são eles, mas não vou desistir de ter justiça”.

Pedro Henrique, filho de Conceição, que também tem 23 anos, entrou para o Exército por incentivo do irmão. “Eu temo muito por ele. O Pedro fala que quer honrar o irmão, que vai ser sargento por ele. Só tememos pela vida dos meus dois filhos. Comigo e com o meu marido pode acontecer qualquer coisa”, completa.

Violência física e psicológica

O psiquiatra explica que, durante a passagem de Eduardo pelo Exército, ele sofria muita violência psicológica. “Também tinha a violência física dele contra si, uma auto-agressividade. Ele sofria muito com a culpa que ele tinha de que não conseguir servir aquilo que ele sempre amou. Ele vivia sonhando com o Exército. Foi uma decepção daquilo que ele desejou e, de repente, se transformou no abismo da vida dele”, lembra.

De acordo com o médico, a doença do jovem era mais grave que a depressão em si. “Tem uma característica e reversibilidade pior que a depressão. É uma doença muito difícil de tratar que, infelizmente, tem crescido no Brasil pela questão da violência”, relata.

Para o médico, o termo que devemos tratar é a psicofobia. “Se ele estivesse com a perna quebrada, ninguém questionaria nada, ninguém pensaria que ele estava tentando enganar ou levar vantagem de alguma forma. A impressão que fica é que em todo momento ele foi questionado a esse respeito, como se ele tivesse querendo tirar vantagem. Isso é muito frequente nas doenças mentais, precisamos quebrar o preconceito em relação a isso. A família dele aceitou e acolheu bem, mas o ambiente profissional falhou muito”, completa.

Medidas judiciais

De acordo com o advogado José Carlos Stephan, serão três ações judiciais. “A primeira é por crime militar, na Justiça militar, pois entendo que aconteceu abuso de autoridade e crime de maus-tratos. Outra ação será na Justiça comum, pois entendo que o judiciário também errou por entregar ele de volta aos militares. A última na Justiça federal, referente ao próprio falecimento e interrompimento da carreira dele, com indenização da família, pensão e etc”, conta.

“Temos a documentação referente a isso tudo, os laudos médicos dizendo que ele não deveria ir de forma alguma para o Rio de Janeiro. Ele não poderia sair de perto da família, pois poderia causar a morte dele. E, ainda assim, o quartel sabendo dessa recomendação, que eu enviei, que estava nos autos, ignorou por conta própria. Não sei qual foi o oficial que determinou isso”, continua o defensor.

Para o advogado, o suicídio de Eduardo é colocado, agora, “entre aspas” e passa a ser duvidoso. “Tudo foi bem dito e tenho um ofício em mãos que o quartel diz que o HCE seria o local que ele seria melhor atendido, que estaria protegido e bem cuidado, o que não foi verdade. Entendo que existem crimes militares, que serão apurados. Acho que foi uma covardia o que foi feito, essa morte poderia ter sido evitada. Houve um total descaso e despreparo da administração militar”, completa.

Procurado pelo BHAZ, o Exército informou, por meio de nota (leia abaixo na íntegra), que foi “instaurado Inquérito Policial Militar (IPM), a fim de se apurar o fato ocorrido no interior do Hospital Central do Exército”. Além disso, a instituição se limitou a dizer que “lamenta a morte do militar e está prestando toda a assistência necessária à família”.

Nota do Exército

“A Seção de Comunicação Social do Comando Militar do Leste (CML) informa que foi instaurado Inquérito Policial Militar (IPM), a fim de se apurar o fato ocorrido no interior do Hospital Central do Exército.

O CML lamenta a morte do militar e está prestando toda a assistência necessária à família.

Cabe reiterar que o Exército Brasileiro não compactua com qualquer tipo de irregularidade, repudiando veementemente atitudes e comportamentos em conflito com a lei, com os valores militares ou com a ética castrense”.

Fonte: BHAZ

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