Terra em transe: a disputa hegemônica engolfa o Brasil

terra em transe

Por Fabio Reis Vianna

Mesmo que a retórica e a estratégia de segurança provisória do próprio governo Joe Biden tente dar um verniz multilateralista à ideia de que a hegemonia benevolente estaria de volta, a realidade imposta pelo aumento da pressão competitiva, que se aprofunda após a eclosão da pandemia, e adquire contornos dramáticos na chamada “guerra das vacinas”, revela um cenário desafiador para os próximos anos.

O aumento gradual da pressão competitiva, sintoma de um fenômeno justificado na teoria do Universo em Expansão, teria suas origens após os atentados de 11 de setembro, quando a “guerra universal ao terrorismo” desvenda um mundo onde o poder de um hegemon onipotente se revelaria na necessidade de expansão permanente do poder por meio do uso de sua infraestrutura militar.

Surge então a figura do “inimigo terrorista”, que poderia ser qualquer pessoa ou grupo, dentro ou fora dos Estados Unidos, um inimigo universal que poderia ser destruído em qualquer lugar, mesmo que isso significasse violar direitos individuais ou a soberania de outros Estados.

O expansionismo unilateral de poder levado a cabo pelos americanos a partir do 11 de setembro teria, portanto, gerado o germe da escalada dos conflitos, levando a um aumento da desestabilização e, consequentemente, a um movimento reativo dos demais estados do sistema mundial.

Como num movimento de autoproteção, antigos poderes do sistema interestadual voltam a um jogo que parecia morto, mas na prática estava apenas adormecido: a velha geopolítica das nações, onde o interesse nacional e a retomada da soberania voltariam a jogar o cartas contra os dogmas da globalização e da ordem liberal.

O retorno da Rússia, que em 2015 interveio na guerra síria – demonstrando um poder bélico não visto há muito tempo – representou um ponto de inflexão, que aparentemente começou com a reeleição do próprio Vladimir Putin em 2012, mas também com a chegada ao poder de o atual presidente chinês Xi Jinping em 2013. A partir de então, a disputa interestatal teria se acelerado consideravelmente com a ascensão desses dois gigantes eurasianos.

A disseminação da competição internacional e da instabilidade estariam, portanto, em linha com a ideia de que para os atores políticos internacionais o esforço por mudanças no sistema seria preponderante para a realização de seus próprios interesses.

O surgimento de novos atores emergentes no sistema mundial, ainda que considerado um fator desestabilizador do próprio sistema, por outro lado, impulsionaria no estado hegemônico o impulso expansionista necessário para que ele se mantivesse no topo do sistema.

A instabilidade global provocada pelo embate entre os poderes que estariam se beneficiando da ordem internacional instituída e os Estados que almejariam galgar a escada do poder sugeriria o fim, ou pelo menos a interrupção do consenso mínimo necessário para a harmoniosa coexistência dentro do que Hedlley Bull chamaria de “sociedade de estados”.

Nessa perspectiva, a hipótese de guerra surgiria como um expediente quase inevitável para resolver as tensões causadas pelos desequilíbrios de poder e instabilidade global. É da guerra, portanto, e principalmente da chamada guerra hegemônica, que surgirá o estado ou coalizão de estados que conduziria a nova ordem internacional.

No momento em que se discute a crise ou o fim da chamada ordem liberal criada no século XX e liderada pelos Estados Unidos da América, o que parece evidente é a ocorrência de um questionamento cada vez mais profundo da atual ordem internacional. por outras nações.

Nesse sentido, a instabilidade global refletida no aumento da pressão competitiva estaria explícita no contexto de um ambiente conflitivo generalizado, ou em via de generalização.

Para melhor conceituar essa ideia, a Teoria da Guerra Hegemônica de Robert Gilpin indicaria que um ambiente conflitivo generalizado, mesmo que não configurado em uma guerra aparentemente hegemônica, já sugeriria tal situação se pensarmos que o que difere uma guerra hegemônica de outras categorias de guerra seria precisamente a concepção sistêmica existente nas relações entre os estados individuais. Sendo assim, e por se tratar de uma relação sistêmica, toda a própria estrutura seria afetada por ela.

O que vem acontecendo internamente em um país como o Brasil é um exemplo muito peculiar e em escala local desse fenômeno global que se espalhou pelo sistema interestatal.

Portanto, assim como a pandemia acelerou e aprofundou a crise sistêmica global, internamente ela teve um efeito devastador ao fundir conflitos e contradições nas sociedades de muitos países ao redor do mundo.

Num momento em que a comissão parlamentar que investiga a crise pandêmica expõe as vísceras da corrupção no governo Bolsonaro, expondo as Forças Armadas a um constrangimento público há muito não visto, a nota de repúdio aos três comandos militares em uma clara ameaça ao Congresso Nacional confirma a tese de que a guerra interna nas instituições e elites oligárquicas é algo real e cada vez mais descontrolado.

A estranha visita do diretor da CIA a Brasília e seu encontro a portas fechadas com Bolsonaro e o chefe da espionagem brasileira, General Augusto Heleno, soou como uma mensagem intimidante para a sociedade civil brasileira de que o governo Biden endossaria um hipotético fechamento de regime no Brasil.

Como aconteceu durante o governo Jimmy Carter – quando a ditadura militar foi fortemente pressionada pelos Estados Unidos -, ainda que a pressão da opinião pública americana possa levar o governo Biden a abandonar o nefasto governo Bolsonaro, ainda é muito útil para o atual A estratégia de segurança americana de que um governo vassalo como o brasileiro garante o afastamento da presença eurasiana no “Hemisfério Ocidental”, e ainda contribui para a desestabilização de países hostis como Argentina, Bolívia, Venezuela e Cuba.

A forma errática como está sendo feita a privatização da Eletrobrás – o que levará a um aumento sem precedentes de custos – assim como a crise de energia que se aproxima, sinalizam um distanciamento crescente de setores poderosos das elites empresariais de um governo que revela um rosto abertamente militarizado e autoritário, alheio à realidade.

O esgarçamento, portanto, das relações sociais no topo da pirâmide brasileira revela um cenário que encontra precedente histórico apenas naquele período que culminou na chamada Revolução de 1930, quando a disputa entre as oligarquias da época atingiu seu auge.

A exemplo do que está acontecendo neste momento em Cuba e na África do Sul, a escalada dos conflitos sociais sistêmicos parece não ter fim e, ainda que por motivos diversos, seria o resultado da caixa da pandora aberta pela pandemia.

Mesmo que à primeira vista não pareça relevante, certamente o aprofundamento das tensões em nível global – dentro do universo da grande disputa hegemônica – será decisivo para o futuro da debilitada democracia brasileira.

O clássico “Terra em Transe”, do grande cineasta Glauber Rocha, nunca foi tão útil para a realidade brasileira.

Fabio Reis Vianna, mora no Rio de Janeiro, é bacharel em direito (LL.B), mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Évora (Portugal), escritor e analista geopolítico. Atualmente mantém uma coluna sobre política internacional no centenário jornal brasileiro Monitor Mercantil.

Fonte: The Saker Blog

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