Última caixa das ossadas de Perus é aberta 29 anos após descoberta

Desde 2014, graças ao trabalho da equipe responsável pela análise do material descoberto em vala clandestina, duas vítimas da ditadura foram identificadas

Crimes da Ditadura – Abertura da última caixa, nesta sexta-feira. Desde 2014, acordo permitiu análise e início de processo de identificação

São Paulo – Vinte e nove anos, três meses e nove dias separam a descoberta da vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus, região noroeste de São Paulo, do anúncio da abertura da última das 1.049 caixas de ossadas encontradas no local. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (13) pelo professor Edson Teles, coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Que este seja um passo colaborativo no sentido de constituir no país uma antropologia forense autônoma e independente de apuração da violência do Estado”, escreveu o pesquisador, em rede social.

Descobertas em setembro de 1990, as ossadas, na verdade, passaram por análise anteriormente, mas também ficaram longo período praticamente abandonadas e se deteriorando. Por acordo firmado em 2014, se constituiu o Grupo de Trabalho Perus (GTP), do qual se originou o Caaf, destinatário do material. O grupo envolveu o Estado via União (Secretaria de Direitos Humanos e Ministério da Educação), prefeitura paulistana (Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania), a Unifesp e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Nestes anos construímos uma forte institucionalidade, por meio de uma ação judicial movida pelo Ministério Público Federal, e, sempre, com a participação direta e decisiva dos familiares de mortos e desaparecidos políticos. O trabalho produziu protocolos únicos de análise de uma vala desta complexidade, colaborou com a formação de profissionais, estreitou laços com os movimentos sociais de denúncia da violência de Estado, entre outros ganhos”, avaliou Teles, lembrando que o GTP foi extinto pelo atual governo. “Identificamos dois militantes políticos, presos, torturados e assassinados pela ditadura, no DOI-Codi do Exército, em São Paulo. São eles: Dimas Antônio Casemiro e Aluizio Palhano”, acrescentou. 

Na última segunda-feira (9), o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), em São Paulo, promoveu audiência de conciliação para discutir, entre outros temas, a pretensão do governo de transferir as ossadas para Brasília. Unifesp, procuradores, prefeitura e familiares se posicionaram contra. No final, não houve acordo, e os representantes do Executivo desistiram da proposta.

Agora, o trabalho se concentra em 26% das caixas que têm ossos de mais de uma pessoa, o que exigirá, segundo o professor, “um processo de reassociação dos ossos que não pertencem aos indivíduos principais destas caixas”. “Que novas identificações possam ser confirmadas e possamos restituir às famílias seus entes queridos e ao Brasil sua história de luta”, afirmou.

Do RBA

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