Bolsonaro: Entre chifres e ‘rachadinhas’

Ex-funcionário da família do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) revela desde esquema criminoso das ‘rachadinhas’ até a traição conjugal com bombeiro militar, que teria levado ao término do segundo casamento.

ana bozo
Ana Cristina, que atua fortemente em favor do clã Bolsonaro, prestou depoimento ao MP

Os detalhes mais sórdidos da relação entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), seus filhos, ex-mulheres e um círculo de crimes ganharam, nesta sexta-feira, o alto das listas de comentários, nas redes sociais, e ampliaram o desgaste que o mandatário neofascista experimenta em todas as pesquisas de opinião publicadas ao longo dos últimos meses.

Nesta manhã, portais de notícias publicaram entrevistas com o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, servidor público no período em que o primogênito do presidente exercia mandatos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), em que ele revela ter sido obrigado a devolver, mensalmente, até 80% do salário para o esquema criminoso conhecido como ‘rachadinha’.

Santos afirmou ainda, aos jornalistas, que além dos 80% do salário, era forçado a entregar percentuais semelhantes do 13º salário, férias e do total recebido como vale-alimentação e a restituição do Imposto de Renda. Santos revelou, ainda, que entregava esses valores em dinheiro vivo para a advogada Ana Cristina Siqueira Valle, segunda mulher do presidente Bolsonaro, todos os meses, por mais de quatro anos.

‘Carluxo’

Assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj de 1º de fevereiro de 2003, no início do mandato do então deputado estadual, até 6 de agosto de 2007, quando Ana Cristina e Jair Bolsonaro divorciaram-se, Santos repetiu tudo o que disse, em juízo. Segundo seu depoimento, a ex-mulher do hoje presidente era chefe de Gabinete do vereador Carlos Bolsonaro (Patriota-RJ) — o Carluxo, ou ’02’, como também é conhecido — em seu primeiro mandato na Câmara Municipal do Rio.

— Tudo a mesma coisa — afirmou Nogueira sobre as condições impostas aos servidores do vereador, na Câmara.

O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) autorizou, em maio, a quebra de sigilo bancário e fiscal do vereador, de Ana Cristina e de outros 25 assessores, no âmbito do inquérito sobre a prática da ‘rachadinha’; além da nomeação de funcionários fantasmas.

Devolução

Entre 2003 e 2004, o salário bruto de Nogueira era de R$ 1.791,79. A partir de 2005, os vencimentos passaram a R$ 4.253,69. Já em 2006, chegou a R$ 4.466,37. Ao todo, nos mais de quatro anos na Alerj, Santos recebeu em salário bruto um valor de R$ 176.700. Se corrigido pela inflação do período, o total chega a R$ 382.805.

Marcelo Santos, porém, nega ter sido “funcionário fantasma no gabinete”. Ele alega que prestava serviços como atendimento ao eleitor e manuseio da correspondência: “etiquetar, colocar selo, todo aquele trabalho que eles fazem”, segundo afirmou.

Ana Cristina foi apresentada a Santos, lembrou, por intermédio de um namorado. Ela o convidou para ingressar no Serviço Público lotado no gabinete de Flávio Bolsonaro. Desde o início, no entanto, a proposta incluía a devolução a maior parte do salário.

— Tudo foi negociado com ela (Ana Cristina) — acusou.

Fabrício Queiroz

O ex-servidor teve seu sigilo bancário quebrado, no inquérito em curso sobre os crimes possivelmente cometidos por Flávio Bolsonaro, que mostram os saques mensais feitos por Nogueira ao longo de 2007. Em 13 ocasiões, o servidor sacou mais de R$ 1 mil. Em abril daquele ano, dois dias após receber R$ 4 mil da Alerj, ele retirou R$ 3 mil, em espécie.

A denúncia de Santos se soma a outra, semelhante, levada à Justiça pela estatística Luiza Sousa Paes, outra ex-assessora do senador Bolsonaro, no acordo de colaboração fechado com o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPE-RJ), há cerca de um ano. Paes foi nomeada depois que Nogueira foi exonerado do gabinete, já em 2011.

Ela revela que ficava com apenas R$ 700 dos quase R$ 5 mil que recebia como assessora. A estatística, todavia, admitiu que nunca cumpriu expediente no gabinete do parlamentar, e que entregava os valores para o ex-assessor da família, o ex-PM Fabrício Queiroz, que confessou a existência do esquema.

Mansão

Advogados do senador, Luciana Pires, Juliana Bierrenbach e Rodrigo Roca negam que o Flávio Bolsonaro soubesse de irregularidades.

“O parlamentar sempre seguiu as regras da assembleia legislativa e tem sido vítima de uma campanha de difamação. Tanto a defesa quanto o senador desconhecem as afirmações de Marcelo Luiz Nogueira dos Santos”, disseram, em nota, os defensores.

Nos últimos cinco anos, Marcelo Nogueira conta que morou com Ana Cristina, em Resende, no Sul do Estado do Rio, e se desentenderam depois que ela o convidou para trabalhar com ela em Brasília e, segundo ele, não cumpriu com o combinado quanto aos seus vencimentos.

Escravo

A segunda mulher do presidente mudou-se, em fevereiro, para a capital federal e recentemente passou a alugar uma mansão de R$ 3,2 milhões no Lago Sul, região das mais nobres de Brasília.

— Ela falava ‘você tá fazendo questão, mas não vai ter nem gasto, vai tá morando na minha casa.’ Eu falava que ‘não sou seu escravo não, não trabalho pra morar na casa de ninguém não’. A gente trabalha pra ter nossas coisas, sou igual todo mundo, não é porque sou preto que vou ficar em casa de patrão não. Ela queria me escravizar, né? — desabafou.

Santos revoltou-se com o tratamento dispensado pela ex-patroa. 

— Ela me viu como o quê? Só porque eu era preto — apontou como um dos motivos para denunciá-la ao Ministério Público do Trabalho (MPT), onde está registrado o processo trabalhista.

O patrimônio de Ana Cristina, mãe de Jair Renan (o filho ’04’) foi estimado, judicialmente, em R$ 5 milhões no ano passado. De acordo com Marcelo dos Santos, no entanto, ela não alugou o imóvel, conforme alega. A propriedade teria sido comprada em nome de dois ‘laranjas’, com quem firmou um “contrato de gaveta” (documento informal, não registrado em cartório). O objetivo, segundo Santos, era fazê-los repassar o imóvel para seu nome após o encerramento do financiamento.

Proteção

O ex-empregado da família Bolsonaro disse ainda que, inicialmente, a casa fora negociada por um valor entre R$ 2,9 milhões e R$ 3,2 milhões. Santos também afirmou, a jornalistas, que desconhecia o valor final da operação financeira, mas teria ouvido conversas entre o filho, Jair Renan, e a advogada sobre a transação.

A mansão tem 1,2 mil metros quadrados (m²) de área total e 395 m² de área construída, uma piscina de 50 m², aquecimento solar e quatro suítes.

Ana Cristina teria sido substituída no comando do esquema de “rachadinhas” nos gabinetes dos filhos para Flávio e Carlos, depois que Bolsonaro descobriu que era traído pela mulher, que teria mantido um caso tórrido com o bombeiro destacado para fazer a escolta da família, no Rio. 

#BolsonaroCorno

Segundo Santos, Bolsonaro separou-se da mulher depois que veio à tona o caso dela e o bombeiro militar Luiz Cláudio Teixeira.

Após as denúncias, parlamentares cogitam levar adiante o pedido de medidas protetivas ao denunciante. Os parlamentares acreditam que Santos corre risco de morte por revelar os detalhes do esquema.

Uma vez exposto o escândalo, internautas subiram o termo #BolsonaroCorno para os assuntos mais comentados do Twitter, nesta sexta-feira. Sobre o assunto, mais de 8 mil pessoas acessaram a mensagem do comediante Fabio Porchat: “Agora entendi porque seguidor do Bolsonaro é gado! #BolsonaroCorno“, encerrou.

Fonte: CdB

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