Do isolamento à tensão com a China: o ‘trágico legado’ de Ernesto Araújo para a política externa

O chanceler Ernesto Araújo pediu demissão do cargo nesta segunda-feira (29), de acordo com apuração divulgada na mídia. Especialista ouvido pela Sputnik Brasil avaliou o legado do ministro para a política externa brasileira.

chanceler idiota

Sputnik – Após uma grande pressão no Congresso Nacional, inclusive dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), o ministro Ernesto Araújo teria pedido demissão do cargo ao presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira (29). As informações foram publicadas pelo portal G1.

Ao fazer uma análise do legado do chanceler, o professor de Relações Internacionais da UFRJ, Fernando Brancoli, em entrevista à Sputnik Brasil, avaliou que Ernesto Araújo forjou uma aliança imediata com o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e Israel, em detrimento de outros tradicionais aliados brasileiros, que teria isolado o país na arena internacional.

De acordo com ele, a eleição de Joe Biden nos EUA mudou o cenário para a política externa brasileira, tendo em vista que o próprio Ernesto Araújo e o presidente Jair Bolsonaro chegaram a afirmar que a eleição norte-americana poderia ter sido fraudada. Para Brancoli, a derrota de Trump e a reação da diplomacia brasileira “deixaram o Brasil em uma posição muito ruim”.

“A política externa dele como legado é muito trágica, muito ruim. Ele apostou todas as fichas em uma relação carnal com Trump nos EUA, e aí não com os Estados Unidos, mas com a figura de Trump, o que ajuda a explicar porque que ele perdeu tanta influência desde a chegada do Biden nos últimos meses”, afirmou.

O professor de Relações Internacionais observou que Ernesto Araújo “isolou tradicionais aliados brasileiros”, como o caso da Argentina e os países árabes, que foram deixados muito de lado durante a gestão do chanceler. “Em parte também por essa aproximação com Trump, que fez com que ele tenha se colocado como um aliado de primeira hora de Israel”, complementou.

Outro fator marcante da atuação de Ernesto Araújo no comando do Ministério das Relações Exteriores foi a deterioração das relações com a China. Fernando Brancoli lembra que “desde a chegada de Bolsonaro ao poder, a China vinha sendo colocada como um possível antagonista”.

“Mesmo com Bolsonaro ainda candidato, ele faz menção ao que ele vê como práticas expansionistas da China, e o Ernesto Araújo continua esse discurso após a eleição […] Obviamente a coisa começou a apertar, porque a China é o maior parceiro para dar apoio na questão das vacinas”, declarou.

No início do ano, a diplomacia brasileira se viu diante de entraves para conseguir o fornecimento por parte da China e da Índia de doses de vacina e insumos para a produção de imunizantes contra a COVID-19 Brasil. O agravamento da pandemia no país aumentou a pressão sobre o trabalho de Araújo.

Segundo o especialista, a figura do Ernesto Araújo acabou materializando a insatisfação com o governo Bolsonaro, formando a ideia de um país isolado, que quase não assinou as parcerias para recebimento das vacinas com o ministério da Saúde.

A pressão sobre o trabalho do chanceler aumentou severamente nos últimos meses com os atrasos na entrega de vacinas contra COVID-19 produzidas pela Índia e China. A resistência de Ernesto Araújo em inscrever o Brasil no COVAX Facility, consórcio ligado à Organização Mundial de Saúde (OMS) para facilitar a distribuição de imunizantes contra o coronavírus, também foi um fator determinantes para o ministro ser alvo de críticas dentro do governo.

No último domingo (29), Ernesto Araújo usou as redes sociais para atacar a senadora Kátia Abreu, que preside a comissão de Relações Exteriores do Senado, sugerindo que ela havia feito lobby para a China na questão do 5G no Brasil. O gesto foi visto como uma tentativa de tirar o foco da pressão por sua demissão.

Em resposta, a senadora Kátia Abreu publicou uma nota afirmando que o ministro Ernesto Araújo age de “forma marginal” e que está “está à margem de qualquer possibilidade de liderar a diplomacia brasileira”.

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