O dia em que Vlado Herzog salvou a minha vida

Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura cívico-militar em 1975

Maurício Orestes Parisi

Uma das minhas primeiras lembranças escolares foi ser vacinado contra a meningite. Havia um surto no país. Era o ano de 1973.

Até hoje está na minha memória um monte de crianças em fila para serem vacinadas por um “revolvinho”. Isto chamou minha atenção.

Revólver. Uma bela imagem de época. Eram os tempos da Ditadura. Militar na forma e burguesa no conteúdo.

Este surto de meningite implicou em vacinações em massa apressadas. Sua existência foi aceita de forma relutante pelos ditadores. Comprometia a imagem de Brasil potência. Ironicamente coincide com o fim do milagre econômico.

O surto veio à tona – depois de ter ceifado a vida de milhares de crianças – por um trabalho jornalístico capitaneado por Vladimir Herzog na TV Cultura. Herzog era um grande apaixonado por cinema. Influenciado pelo cinema-verdade do soviético Dziga Vertov – “uma câmera na mão, uma ideia na cabeça” – criou o jornalístico Hora do Povo junto com outros como o cineasta João Batista de Andrade.

A grande característica era a câmera ágil na rua entrevistando pessoas e mostrando os ambientes – o Aqui e Agora e o SPTV são as versões desubstancializadas mercantis. Em um exercício de realismo que dissolvia a estética alienada da propaganda oficial.

Eram militantes comunistas. Herzog era do PCB. E defendo que o “Partidão” era uma estrutura de sentimento.

A denúncia do surto de meningite salvou muitas vidas. A minha foi uma delas.

Em 1975, quando os “ratos do porão” quiseram mostrar que podiam pegar qualquer um, a escolha de Herzog não foi aleatória. Pegar um figurão da TV Cultura que ousou desafiar as nossas pós verdades pioneiras. Um intelectual que confiava na Razão contra gorilas e ratos.

Esta é a História da Ditadura. Muitas vítimas. Não só pela repressão direta, mas também pelo impacto social. Precisamos continuamente desvelar a barbárie entranhada na sociedade brasileira.

Do PCB

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