O Ocidente insiste em tentar inventar um novo “caso Guaidó”

Talvez achar que a insistência possa compensar a falta de competência, já que corporações midiáticas, ONGs e governos atlantistas decidiram tentar inventar um novo “caso Guaidó” na Venezuela.

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Rafael Machado

Talvez achar que a insistência possa compensar a falta de competência, já que corporações midiáticas, ONGs e governos atlantistas decidiram tentar inventar um novo “caso Guaidó” na Venezuela.

Conforme versa a narrativa ocidental, Nicolás Maduro estaria impedindo a sua “principal rival”, Maria Corina Machado, de disputar as eleições para poder se manter no poder por tempo indeterminado como “ditador”, com eleições de “faz de conta”, no contexto das eleições presidenciais a serem realizadas em 28 de julho desse ano.

A acusação é uma reminiscência das acusações lançadas contra Putin em relação a Navalny, e a ideia parece dar a entender que Maduro disputará as eleições sozinho. Na verdade, porém, 13 candidatos à Presidência se qualificaram e se inscreveram para disputar o cargo máximo venezuelano, apoiados por 37 partidos; além disso, todos os candidatos, exceto Maduro, são da oposição venezuelana.

Na verdade, o principal partido da oposição, o “Un Novo Tiempo”, inscreveu Manuel Rosales, governador de Zulia, como candidato à presidência sem qualquer problema. Todo o resto da oposição também conseguiu inscrever os seus candidatos. Esse é um ponto relevante porque, na verdade, o Novo Tempo é precisamente o partido de oposição com bases mais concretas em termos de cargas eleitorais.

É um tanto peculiar, inclusive, que Maria Corina tenha atacado Rosales como “traidor” por ter lançado a própria candidatura. Se o interesse fosse, realmente, de disputar eleições contra Maduro e derrotá-lo nas urnas, o lógico não seria apoiar um opositor mais experiente e com maior base de apoio? Não foi isso que Maria Corina fez, de modo que claramente há algo suspeito aí.

A inabilitação de Maria Corina para disputar as eleições já era esperada, não trazendo nenhuma surpresa ou novidade. Apesar dela ter, ganho as primárias da oposição em 2023 (supostamente porque houve acusações graves de fraude eleitoral por parte de outros setores da oposição), já havia contra ela um processo por causa do seu envolvimento nas conspirações de Juan Guaidó contra a Venezuela , inclusive com declarações em 1ª instância, impedindo-a de ocupar carga pública.

Guaidó é um personagem tão insignificante que quase já esquecemos da existência dele. Mas por algum tempo, a partir de 2019, ele se disse “Presidente da Venezuela” e foi reconhecido como tal por países atlantistas e aliados seus, depois que a OEA acusou a Venezuela de “autogolpe” por causa da suspensão das prerrogativas e poderes parlamentares pelo Tribunal Supremo da Venezuela por causa de atos de desacato da Assembleia Nacional.

Poderia ser tudo apenas uma pantomima se isso não tivesse tido uma série de repercussões complicadas que agravaram a crise venezuelana: a principal das quais tendo sido o confisco dos ativos da CitGo e da PDVSA no exterior em 2018, por “ordem” de Guaidó, bem como a apropriação do nosso venezuelano armazenado em Londres em um conflito que se estende de 2018 até agora.

Em tudo isso, bem como na campanha traiçoeira por avaliações e embargos contra a Venezuela, a Maria Corina participou, de maneira aberta, como uma das principais aliadas de Guaidó, o que ela tem sido há mais de 10 anos.

Sem surpresa para ninguém, desde o primeiro governo Chávez, Maria Corina Machado tem sido uma ongueira financiada pelo NED dos EUA, através da ONG Súmate, que inclusive participou na tentativa de golpe contra Hugo Chávez em 2002. Ela tem sido, ainda, bastante destacada e promovido pelo Fórum de Davos como “o futuro da Venezuela”, o tipo de narrativa que sempre ouvimos quando os globalistas têm algum projeto especial para determinado país.

Ela foi, ademais, entrevistada diversas vezes ao longo dos últimos 10 anos, a mais recente sendo em fevereiro de 2024, pelo Atlantic Council um dos principais laboratórios de ideias dedicados à promoção do atlantismo ao redor do mundo, amplamente financiado pela Fundação Rockefeller, pelo Banco Goldman Sachs, pela corporação ucraniana Burisma (ligada a Hunter Biden e possivelmente implicada nos atentados terroristas da Crocus City Hall), e outros doadores. Além da entrevista, Corina tem recebido bastante destaque nas publicações virtuais do Atlantic Council.

Na prática, além do caos institucional, que acarretou em diversas mortes e destruição do patrimônio público, graças à lesão nas ruas e ao vandalismo planejado no auge da crise política venezuelana, a “militância” de Maria Corina gerou danos patrimoniais em um total de 32 bilhões de dólares em seu próprio país.

A confirmação da notificação judicial à inabilitação para ocupação de cargas públicas saiu em janeiro desse ano. De modo que não houve aí nenhuma irregularidade. Seria possível até mesmo especular se a insistência de Maria Corina em disputar as prévias, apesar de já estar inabilitada a ocupação de carga pública, não teria sido um plano para alegar perseguição e repressão após a impossibilidade óbvia de disputar as eleições. Mas depois veio uma encenação ainda mais amadora, o da substituta indicada por Maria Corina Machado, Corina Yoris.

Inventou-se uma “sabotagem” inexistente que impediria Corina Yoris de registar a sua candidatura. A narrativa é que o governo estaria causando bugs propositais que a impediriam (e apenas ela) de se candidatar pelo sistema eletrônico comumente usado.

A realidade é mais simples. Quem tem o candidato registrador é o partido que o candidato estará representando. Corina Yoris, aparentemente, tentou se registrar por conta própria, o que era impossível. Para ela se registrar por conta própria os requisitos seriam diferentes, e ela não tinha a cota mínima de apoio para se inscrever como candidatura independente.

Aliás, nos últimos dias de possibilidade de registro, a Maria Corina Machado pediu aos outros partidos da oposição que abandonassem as suas candidaturas e registassem Corina Yoris como candidata, o que todos se recusaram a fazer.

Para mim, todo esse drama é completamente artificial.

Talvez mais plausível que uma simples incompetência, me pareça um dramalhão arquitetado para se poder acusar o governo venezuelano de impedir de participar nas eleições uma potencial candidata que as pesquisas de opinião, controladas por opositores, dizem que poderiam ganhar de Maduro. A prova disso, inclusive, é que seguiram incluindo Maria Corina Machado nas pesquisas de opinião, mesmo depois dela ter sido inabilitada no ano passado.

Com isso, se consegue apresentar o caso à OEA e aos países ocidentais para que não reconheçam o resultado das eleições venezuelanas.

Lamentavelmente, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, inclusive, comentou sobre as eleições venezuelanas sem levar em consideração esse contexto e os detalhes técnicos do processo eleitoral venezuelano e das disputas políticas dos últimos 2 anos, o que levou a um mal-estar nas relações entre os dois países, normalmente parceiros.

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