Reencontrando Giocondo e Prestes!

PCB
Giocondo Dias – Luíz Carlos Prestes

Por Ivan Pinheiro

Eu não poderia deixar de socializar ao meu círculo de amizade e camaradagem um resumo dos pensamentos e sentimentos que me envolvem e fazem refletir, desde quando, há poucos dias, li um texto de Luiz Carlos Prestes, de março de 1981 (“Aprender com os erros do passado, para construir um partido novo, efetivamente revolucionário”), e, logo em seguida, assisti o documentário “Giocondo Dias – um clandestino ilustre”, do cineasta Wladimir Carvalho, lançado recentemente.

Como se sabe, Prestes e Giocondo protagonizaram uma intensa luta interna que levou à divisão do PCB no início da década de 1980. Prestes era o Secretário Geral antes da divisão e Giocondo passou a sê-lo em seguida, até sua morte em 1987.

A coincidência dessas leituras foi impactante. Esses dois camaradas foram – em épocas e por razões diferentes – as minhas principais referências políticas no PCB, inclusive no momento em que, como militante do partido, fui obrigado a fazer uma escolha dramática entre os distintos caminhos que os dois seguiriam. Como minha militância sindical à época resultava em alguma exposição pública, foi natural ter sido convidado para conversas particulares com ambos e que obviamente eu as aceitasse. No meu caso, esses encontros foram muito mais para ouvir do que dialogar, até porque havia poucas informações sobre as divergências, além dos rumores.

Depois de conhecer opiniões de outros quadros e de intermináveis debates na célula em que militava, consolidei uma opinião que me dividia ao meio: concordava (e ainda concordo) com a maioria das críticas do camarada Prestes expostas na Carta aos Comunistas (de março de 1980), mas não com sua decisão de sair do PCB antes do seu próximo Congresso Nacional, que iniciou-se em 13 de dezembro de 1982 [¹], o que pode ter sido um dos fatores que inviabilizaram o seu projeto de criar um novo partido, efetivamente revolucionário, como anuncia no texto.

Respeito a opinião dos que consideram que naquele momento já não havia mais espaço no partido para a luta interna, mas penso que essa conclusão só é razoável se a análise daquela correlação de forças levar em conta apenas a que existia no interior do então Comitê Central, em que Prestes não só era minoritário, mas vítima de isolamento e apagamento político, que ficam evidentes em alguns depoimentos no filme sobre Giocondo e que percebi no dia em que o Cavaleiro da Esperança foi recebido calorosamente no aeroporto do Galeão, ao retornar de um longo exílio em Moscou após a anistia política, no final de 1979.

Alguns dias antes desse evento, fui procurado por um dos poucos membros do CC que ficaram clandestinos no Brasil e escaparam de ser presos e desaparecidos, como os camaradas que Prestes homenageia no texto. Os demais membros do CC estavam no exílio, uma parte em Moscou e Praga, outra em Paris, Roma, Lisboa e outros destinos. Este camarada, com quem me encontrava em “pontos” [²] e que me dava assistência em questões que extrapolavam o âmbito da célula de bancários a que eu pertencia, orientou-me, segundo ele em nome do Secretariado do CC, a não comparecer à recepção do camarada Prestes, porque a ditadura podia “desconfiar” que eu fosse militante do partido! Em vão, ponderei que a figura de Prestes, um herói nacional, extrapolava em muito as fronteiras do partido e que uma recepção expressiva a ele seria um importante ato público contra a ditadura e favorável à imagem do PCB.

Apesar de desconfiado, respeitando essa orientação levei de carro ao Galeão três camaradas bancários, entre os quais minha então companheira, e os fiquei aguardando no estacionamento do aeroporto, decepcionado porque o som dos discursos não descia ao subsolo! Só tive certeza de que se tratara de uma manobra para esvaziar a recepção a Prestes quando, alguns dias depois, veio a público a luta interna, desconhecida até então por todos os militantes de base do partido.

Minha opinião divergente da posição de Prestes, de romper com o partido sem insistir mais na luta interna (que fatos como o mencionado explicam), era baseada na vivência que eu tinha entre os camaradas que atuavam no movimento sindical, não só no Rio de Janeiro, onde eu era presidente do Sindicato dos Bancários e coordenava a Intersindical estadual, mas em outros Estados. Entre minhas tarefas vinculadas à Fração Sindical do CC, estava o esforço do partido para criar articulações intersindicais estaduais, na perspectiva de uma central sindical nacional. Eu circulava, portanto, entre camaradas que atuavam diretamente nas lutas em defesa dos interesses dos trabalhadores, em geral mais refratários à conciliação de classe.

Naquele momento o PCB era a força mais expressiva e influente entre as que atuavam no movimento sindical brasileiro, por conta de sua militância não ter abandonado o trabalho sindical, mesmo em plena ditadura. É bom lembrar que infelizmente esse patrimônio político foi sendo destruído, de forma mais acentuada a partir de 1983, quando o reformismo vigente no CC optou pelo rompimento com o projeto de criação da então combativa CUT, em favor da aliança com o sindicalismo burocrático e conciliador que resultou em centrais pelegas.

Mas essa diferença de avaliação sobre aquele impasse que resultou na saída de Prestes do PCB não desmerece o legado político deste que, na minha avaliação, foi o mais importante revolucionário brasileiro de todos os tempos.

Já nos depoimentos que Wladimir Carvalho colheu de mim e editou em seu documentário sobre Giocondo, presto uma justa homenagem a este também herói por, entre outras virtudes que valorizo, ter entregue sua vida ao partido e pela franqueza como expunha suas opiniões, em qualquer circunstância, e respeitava as divergências. Com ele convivi no CC e na então Executiva Nacional do PCB até sua morte, em 1987.

No balanço sobre o seu papel na formulação da linha política e da ação do partido, entre o golpe de 1964 e o fim da década de 1970, debito em sua conta a o papel que teve na manutenção das Resoluções do VI Congresso (1967), que insistiram na equivocada estratégia nacional libertadora e democrática burguesa, e credito sua contribuição para a manutenção do partido na clandestinidade em condições adversas e para uma tática (datada!) de frente democrática, que privilegiou a atuação no MDB, único e à época plural partido consentido, entre a intelectualidade progressista e no ambiente sindical. Nesse período, as derrotas eleitorais da ditadura, a revogação do AI-5 e o advento da anistia, apesar de poupar os torturadores, contribuíram para a explosão do movimento sindical e de massas e o surgimento de outras correntes políticas à esquerda, na virada da década de 70 para 80.

Apesar do respeito que nutro pelo camarada Giocondo Dias, não reivindico o saldo do seu legado político como Secretário Geral do PCB durante a década de 1980, pois o considero negativo para as novas e futuras gerações de militantes comunistas, por estimular a conciliação de classe e as ilusões sobre a humanização do capitalismo e a democracia burguesa.

A partir de 1979, a emergência das lutas sindicais e operárias em nosso país indicava evidentemente a necessidade de uma inflexão na linha política, na perspectiva de alianças com forças de esquerda que surgiam, ainda que majoritariamente socialdemocratas, como o PT e o PDT de Brizola. Sob a liderança de Giocondo, as resoluções de viés eurocomunista do VII Congresso do PCB (“Alternativa democrática da crise brasileira”), divulgadas em janeiro de 1984 [¹], escalaram a trajetória de conciliação de classes e de degeneração ideológica do partido, que levou os reformistas inclusive a ousarem tentar liquidar o PCB, em 1991 e 1992, quando, é justo lembrar, Giocondo já havia falecido.

Mas não me valho do benefício da dúvida para me iludir com a posição que ele adotaria no “racha”, que se deu em janeiro de 1992. Se vivo fosse, estaria com certeza ao lado dos que tentaram acabar com o PCB, ainda que talvez iludido com a lenda de que o partido sobreviveria de fato como núcleo dirigente da sigla que o sucedesse, como tentou convencer-me Salomão Malina, cuja trajetória também respeito. Além de suas afinidades políticas, grande parte dos velhos dirigentes que mantiveram o partido vivo, mesmo durante os piores momentos da ditadura, cultivava um compreensível espírito de corpo.

A aliança que fundou o PPS (que se apresentava popular e socialista) uniu, de um lado, comunistas históricos que não conseguiam imaginar a sobrevivência do partido comunista no Brasil sem a direção e o apoio do Partido Comunista da União Soviética, ao qual sempre seguiram à risca, nos erros e acertos e, de outro, parlamentares  que não queriam perder suas reeleições e intelectuais e profissionais que não queriam perder seus prestígios e privilégios, em um momento em que os escombros da contrarrevolução na União Soviética caiam apenas sobre nossas cabeças. Era hora de “salvarem” suas biografias e abandonarem um navio que imaginavam afundar!

Muitos daqueles que, por ilusão ou autoengano, acreditaram na falácia de que o partido sobreviveria e perceberam cedo a degeneração da legenda eleitoral que ajudaram a criar, caíram em depressão que abreviou suas vidas. Estes, pelo menos, como Malina, Geraldão, Almir Neves, Lindolfo Silva, Zé Raimundo, Amaro Valentim e Hilário Pinha, com os quais convivi no CC, não assistiram a legenda PPS abrir mão até da referência popular socialista para se chamar Cidadania, definição ainda mais diluída e bem comportada, dentro das “quatro linhas” do intocável estado democrático de direito. Pelo menos não passaram pelo desgosto de ver até onde chegou o pântano que objetivamente engendraram, a maioria por omissão!

O documentário vale por interessantes relatos da trajetória de Giocondo. Mas nele a história do PCB é contada pela ótica dos que saíram do partido, não apenas para exercer o direito natural de alguém se desligar de uma união voluntária – que Prestes dignamente exerceu – mas para tentar acabar com sua existência e nos impedir de mantê-la e reconstruí-la. Tanto é assim que falsificaram a correlação de forças de uma farsa que chamaram de “congresso”, dando direito de voto a não membros do PCB para aprovar a criação de uma nova “forma partido”, e tentaram impugnar no TSE o nosso pedido de manutenção do registro do partido e da anotação do seu novo Estatuto que logo em seu primeiro artigo declarava-se “herdeiro de fato e de direito do PCB, fundado em 25 de março de 1922”, e de seu novo Comitê Central, em que Oscar Niemeyer era o Presidente de Honra e Horácio Macedo de fato.

Não posso deixar também de criticar, não o excelente trabalho técnico e artístico do cineasta, mas a inclusão de alguns comentários desrespeitosos e desonestos em relação ao camarada Prestes, que ao se desligar do partido não visava a sua destruição, mas a sua reconstrução ou a construção de um novo partido revolucionário, não uma legenda para servir às classes dominantes, usando cinicamente a história do PCB.

Já em relação ao texto de Luiz Carlos Prestes, que encaminho em seguida, recomendo vivamente sua leitura. Independentemente das conclusões a que cada um de nós chegar, são inegáveis a extraordinária contribuição política e teórica e os exemplos de abnegação revolucionária que este grande comunista deixa às novas gerações. Devemos a preservação de seu rico acervo fundamentalmente ao trabalho de documentação e divulgação de Anita Prestes, não só como historiadora, mas principalmente como revolucionária.

Em sua crítica e autocrítica, em 1981, a respeito dos erros que o PCB insistiria nos anos seguintes, o camarada Prestes aponta corretamente como o principal erro da história do partido “a falsa apreciação da realidade, ainda em 1945, de definir o caráter da revolução brasileira como “democrática-burguesa”, negando, desde então, que “a formação econômico-social dominante no Brasil fosse a capitalista, embora desde o início marcada como dependente, mas de qualquer forma capitalista”.

Uma vez mantido e reconstruído revolucionariamente, o PCB reconheceu o caráter capitalista da sociedade brasileira e rompeu com o que chamamos de etapismo, afirmando a estratégia socialista da Revolução Brasileira.

Entre outras importantes observações, o camarada Prestes nos chama atenção para a necessidade de não reincidirmos em erros que a história do movimento comunista registra, como a incapacidade de articular corretamente todas as lutas à estratégia revolucionária, que aponta o caminho ao socialismo e de assim não levar em conta, na prática, que “numa sociedade capitalista, a contradição fundamental é a existente entre o proletariado e a burguesia”.

Ivan Pinheiro é membro do Comitê Central do PCB

(14 de setembro de 2021)

[1] – No VII Congresso do PCB, cujas Teses e Tribunas de Debate foram publicadas nas páginas do oficioso semanário Voz da Unidade, não foi possível realizar sequer sua primeira sessão, em 13/12/1982, já que o local onde se realizaria, no centro de São Paulo, foi invadido por um contingente da Polícia Federal, o que resultou na prisão dos que éramos delegados. A invasão se deu menos de meia hora após sua abertura, quando Giocondo Dias ainda apresentava aos cerca de 80 delegados algumas informações e o balanço político em nome do então CC.  Durante o ano de 1983, o Congresso realizou-se de forma “fatiada”, em um cronograma de reuniões em datas diferentes de grupos de 15 a 20 delegados, de forma discreta, no escritório de advocacia que nos defendia no processo com base na Lei de Segurança Nacional, extinto anos depois. Por isso, as Resoluções só foram tornadas públicas em janeiro de 1984.

[²] – Como o partido estava clandestino e não podia sequer manter sedes, os encontros com os camaradas em clandestinidade absoluta se davam em locais públicos diferentes e discretos, geralmente em bairros suburbanos.

(Não deixe de ler a seguir “Aprender com os erros do passado, para construir um partido novo, efetivamente revolucionário”, de Luiz Carlos Prestes)

 

https://www.marxists.org/portugues/prestes/1981/03/aprender.htm

Aprender Com os Erros do Passado Para Construir um Partido Novo, Efetivamente Revolucionário
[25 de Março: O PCB Completa 59 Anos de Lutas Pelos Interesses dos Trabalhadores, Pelas Liberdades e Por Todas a Causas Justas de Nosso Povo]

Luiz Carlos Prestes

1981

Fonte: Prestes Hoje, Editora Codecri, 1983.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2006.
Direitos de Reprodução: Autorização. A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

É com justo orgulho que os comunistas, seus amigos e simpatizantes comemoram mais um aniversário de fundação, em nossa terra, do Partido Comunista.

A criação do PC no Brasil — fundado à luz e sob a influência do grande acontecimento histórico que foi a realização da revolução pelo proletariado da Rússia, dirigido pelo Partido Bolchevique, que tinha à sua frente o gênio de Lênin — foi, no fundamental, a consequência necessária do amadurecimento da classe operária que já sentia a necessidade de uma organização política própria, capaz de dirigir as lutas por suas reivindicações de classe e de lutar consequentemente por um novo regime político, de realizar transformações sociais profundas que libertem os trabalhadores da exploração de que são vítimas.

Recordamos nesta data o pequeno grupo, constituído, na sua quase totalidade, por operários e dirigentes sindicais (de origem anarco-sindicalista), tendo à frente o intelectual de destaque que foi Astrojildo Pereira, grupo que soube vencer todas as dificuldades e enfrentar mil incompreensões para, voltado para o futuro, fundar em nosso País o primeiro partido político dos oprimidos. Apesar de todas as perseguições, das repetidas vezes que foi considerado totalmente aniquilado pelas forças reacionárias, este partido manteve-se vivo e atuante, sempre ressurgindo com novo e maior vigor, de forma a ser hoje a expressão inédita em nosso País do único partido político que já entra no sexagésimo ano de vida. E isto num país como o nosso, cujo atraso cultural e político está concretamente expresso na falta de organizações políticas estáveis, já que as classes dominantes, para enganar a população, diante de cada crise e da consequente desmoralização de seus partidos políticos, tratam de modificar, na defesa de seus interesses, o nome dos partidos políticos, de reduzi-los, por exemplo, a simples ajuntamentos políticos, como a ARENA e o MDB, para, em seguida, como aconteceu recentemente, em nome de uma chamada reestruturação partidária, dividir a “oposição” de maneira a poder manter, através do voto, o sistema de dominação dos monopólios nacionais e estrangeiros.

Nosso Partido não pode, na verdade, ser eliminado, nem desaparecer, porque é a expressão política da classe mais avançada da sociedade capitalista, aquela que, inexoravelmente, cresce com o próprio desenvolvimento do capitalismo.

Desde sua fundação, nas dezenas de anos decorridos, teve sempre o mérito de levantar e lutar com abnegação pelas principais causas justas dos trabalhadores e das demais camadas sociais oprimidas ou exploradas da população brasileira. Lutou sempre pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores, pela limitação da jornada de trabalho, por uma legislação trabalhista mais justa, pela fixação pelo Estado de um salário mínimo, bem como pelo 13º salário e demais reivindicações dos trabalhadores. Foram os comunistas os primeiros a levantar o problema da reforma agrária, lutar pela eliminação do latifúndio, contra as formas pré-capitalistas de exploração dos trabalhadores do campo e pela entrega da terra aos que nela efetivamente trabalham. Coube, também, aos comunistas a iniciativa, em nossa terra, de desmascarar a opressão imperialista e dar passos importantes no caminho da luta contra a exploração do nosso povo pelo capital estrangeiro. Mesmo nas condições da mais brutal repressão policial, exerceram os comunistas papel de destaque na luta em defesa das riquezas naturais da Nação, na luta contra a entrega dos minérios e, em particular, do petróleo aos trustes imperialistas, participando ativamente da histórica campanha pelo monopólio estatal da exploração do petróleo. Nosso Partido, que mobilizou massas em defesa da União Soviética, traiçoeiramente atacada pelo banditismo hitleriano, sendo numerosos os seus membros que participaram do contingente militar que lutou na Itália, após o fim da Segunda Guerra Mundial exigiu que os soldados norte-americanos abandonassem o solo de nossa Pátria e fossem eliminadas as bases militares ianques que durante a guerra foram instaladas em nosso País. Participando sempre de todas as lutas pela redemocratização do País, além de utilizar o voto, tanto na legalidade como nos períodos de maior repressão, os comunistas se fizeram representar na Constituinte de 1946, na qual, apesar do número reduzido de representantes que constituíam a bancada comunista, tiveram papel destacado no esforço para que fossem registrados na Constituição de 1946 os principais direitos democráticos, inclusive o direito de greve para os operários, de tal forma que, apesar das características fundamentais reacionárias da referida Constituição, é ela, no terreno dos direitos civis, a mais democrática que já teve nosso povo. Quando pesou sobre nosso povo a terrível ameaça de fascistização do País, foram os comunistas que tiveram a iniciativa de formar a ampla Aliança Nacional Libertadora e de empunhar armas em defesa da democracia. Apesar dos erros que foram cometidos e que ainda não foram de maneira suficiente analisados, o movimento armado de 1935 representa na vida de nosso Partido o ponto mais elevado de sua atividade política — movimento “Por Pão, Terra e Liberdade” — movimento que por ser patriótico e honesto, não podia, como ensina Lênin, deixar de produzir frutos e de, apesar de derrotado, não ter permitido a implantação de um regime fascista em nosso País.

Com o golpe militar reacionário de 1964, mais uma vez, os comunistas, apesar dos erros cometidos e que contribuíram para a vitória fácil da contra-revolução, continuaram resistindo e lutando pelas liberdades democráticas e souberam travar uma justa luta contra as tendências equivocadas daqueles que se lançaram, inoportunamente, à luta armada. Tanto no período anterior ao golpe, como depois dele, foram numerosos os comunistas que sacrificaram suas vidas na luta pelos interesses da classe operária e do povo. Somente no governo do sr. Dutra, 55 companheiros tombaram sob as balas assassinas da reação e, após 1964, durante o governo do sr, Geisel, morre na tortura o heróico dirigente da Juventude Comunista — José Montenegro de Lima — e são sequestrados e continuam até hoje desaparecidos os membros do CC:

David Capistrano da CostaElson CostaJoão MassenaLuís Maranhão FilhoValter RibeiroHiran PereiraItair VelosoJaime MirandaOrlando Bonfim e Nestor Veras.

Citando estes nomes que refletem as qualidades máximas do verdadeiro comunista, a honra e a dignidade do soldado do proletariado, queremos aqui homenagear a todos os companheiros que nestes 59 anos de luta, sofreram nas prisões da reação e chegaram muitos deles até ao sacrifício da própria vida pelos interesses dos trabalhadores, por um futuro de felicidade para o povo, da liberdade, independência e progresso para a Pátria. Seu sacrifício não foi em vão e a memória deles estará sempre presente na luta dos comunistas pelo socialismo e pela instauração vitoriosa em nossa Terra da sociedade comunista.

Mas a maior homenagem que a todos podemos prestar consiste, agora, em sermos honestos conosco mesmos, em sermos capazes de reconhecer que não tivemos a capacidade de fazer do PCB um partido efetivamente revolucionário, de transformá-lo na vanguarda da classe operária, na organização política capaz de conduzir os trabalhadores à revolução socialista. No fundamental, o principal erro que cometemos consiste na incapacidade de nossa parte de articular corretamente todas as lutas a que anteriormente nos referimos com uma estratégia efetivamente revolucionária, com uma estratégia que, partindo de uma análise correta da realidade brasileira, apontasse o caminho para o socialismo nas condições de nosso País.

Na verdade, devemos reconhecer que não conhecíamos e fomos incapazes de pôr em prática a grande lição de Lênin:

“É necessário dizer as coisas como elas são: o Programa do Partido deve conter o que é absolutamente indiscutível, o que foi efetivamente comprovado e só então será um programa marxista.”

Onde estão, porém, as raízes do erro cometido? Não podemos deixar de reconhecer que elas estão no nosso próprio atraso cultural, como parcela que padece do efetivo atraso cultural da sociedade brasileira, da consequente tendência a copiar ou transferir mecanicamente soluções adotadas para organizações revolucionárias de outros países para o nosso — dogmatismo, portanto —, além de nosso próprio desconhecimento da realidade brasileira, a par de insuficiente conhecimento da teoria marxista-leninista.

Olvidando que nosso país conquistara a independência política no princípio do século XIX e que no fim do século surgira a burguesia industrial, já na época do imperialismo e, por isso, já nascida como uma burguesia dependente e associada do imperialismo, negávamos já em pleno século XX que a formação econômico-social dominante no Brasil fosse a capitalista, embora desde o início marcada como dependente, mas de qualquer forma capitalista.

Víamos o Brasil como um país semicolonial e chegamos a afirmar que dependia da eliminação da dominação imperialista e da liquidação do latifúndio o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Esta falsa apreciação da realidade nos levou, ainda em 1945, a definir o caráter da revolução brasileira como democrático-burguesa, transpondo ao nosso Partido aquilo que Lênin, com acerto, afirmava para as condições da Rússia czarista em 1905.

Negando o caráter capitalista da economia brasileira, aplicávamos mecanicamente e esquematicamente em nosso País as Teses para os países coloniais e semicoloniais aprovadas pelo VI   Congresso da Internacional Comunista.  Isto está expresso com bastante clareza no Manifesto de 5 de julho de 1935, onde, estranhamente, a uma estratégia de direita, porque negava que já se realizara no País a revolução burguesa, adotávamos, simultaneamente, uma tática “esquerdista”. Mas é nos documentos da Conferência da Mantiqueira, de 1943, e nos elaborados a partir de 1945, que se torna mais claro ainda o caráter oportunista de direita da estratégia que adotávamos.

“Insistimos em negar o caráter capitalista da formação social econômica dominante no país. Negando-se à autocrítica dessa estratégia oportunista de direita… o Comitê Central revelou falta de honestidade e incapacidade moral para dirigir o Partido.”

Desconhecendo que em qualquer circunstância, numa sociedade capitalista, a contradição fundamental é a existente entre o proletariado e a burguesia, a pretexto da luta contra o nazismo, defendíamos a unidade que “pode e deve ser alcançada em torno do governo constituído, o que aí temos”, quer dizer, o Estado Novo getulista. Nos documentos da direção do Partido, já por mim assinados, após a libertação em 1945 dos presos políticos, toda a concepção da unidade nacional que pregávamos estava inteiramente ligada à visão estratégica da luta pelo desenvolvimento do capitalismo na democracia que seria conquistada e assegurada com a vitória mundial sobre o nazifascismo. Insistimos, portanto, em negar o caráter capitalista da formação econômico-social dominante em nosso País, para nós ainda considerado como semicolonial e semifeudal. Apresentávamos, por isso, como contradição fundamental na sociedade brasileira, a existente entre a Nação e o imperialismo. Erro de caráter oportunista, repetido até os documentos do VI Congresso de 1967.

Negando-se à autocrítica dessa estratégia oportunista de direita, o CC não quis compreender que estava superada a Resolução Política do VI Congresso. A proposta a este respeito, feita na reunião de maio de 1979, foi rejeitada com apenas dois votos a favor — o meu e o de outro camarada. Insistia o CC em que a contradição fundamental na sociedade brasileira fosse, ainda, a existente entre a Nação e o imperialismo. Não tomava, nem ao menos, conhecimento da vitória que tiveram as delegações dos Partidos Comunistas e Operários da América Latina, inclusive com a participação do nosso, com a aprovação da Resolução dos Partidos Comunistas e Operários — na Conferência Internacional de 1969 — em que já então separamos a análise da situação concreta na maioria de nossos países daquela existente nos países coloniais e semicoloniais da Ásia e África. Reconhece-se naquela Resolução:

“Na América Latina a maioria dos países conquistou a independência estatal nos princípios do século passado; tiveram em conjunto um relativo desenvolvimento capitalista; formou-se, cresce e se forja na luta um numeroso proletariado, tanto na cidade como no campo…”

Negava-se também o CC a tomar conhecimento da Resolução da Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina e do Caribe, realizada em 1975 em Havana, que já reconhecia que:

“…O Socialismo é o único sistema capaz de garantir o desenvolvimento verdadeiro da América Latina com o ritmo acelerado que exigem nossos povos…”

Insistindo na estratégia errada, oportunista de direita, que já nos levou, durante tantos anos, a erros na política cotidiana, assim como a profundas deformações na organização do Partido, o CC revelou sua falta de honestidade e sua incapacidade moral para dirigir o Partido.

Tanto mais que é impossível construir um partido efetivamente revolucionário, capaz de enraizar-se na classe operária, se se baseia numa falsa concepção da revolução. Não estará nessa orientação estratégica direitista o completo insucesso na realização do que chegamos a chamar de “Desafio Histórico” na Resolução do VI Congresso? E não revela toda a história do movimento comunista que a falta de combate, de esforços para combater essa estratégia de direita, leva inevitavelmente à traição à classe operária, aos entendimentos espúrios com a reação e seus governantes e também ao anti-sovietismo?

Enfim, as deformações em nosso Partido chegaram a tal ponto que me senti no dever de escrever a “Carta aos Comunistas“. Nela chamo a atenção para que saibamos elaborar uma nova estratégia, efetivamente revolucionária, que aponte para a construção do bloco de forças antimonopolistas, capaz de conquistar, sob a direção da classe operária, o poder político — antimonopolistaanti-imperialista e antilatifundiário — que abra caminho para o socialismo. Para alcançar essa meta revolucionária, necessitamos construir um novo Partido, efetivamente revolucionário, o que só se alcançará através do trabalho de massas e aplicando uma política correta de alianças, que, através da conquista do mais amplo democratismo, da conquista de uma democracia para as massas, que crie para a classe operária as condições concretas para organizar o bloco de forças antimonopolistas, indispensável para liquidar o poder dos monopólios e de, portanto, abrir caminho para o Socialismo.

Ao entrarmos no sexagésimo ano de nosso Partido, é esta a tarefa principal que enfrentamos, tarefa difícil, mas que será vitoriosa na medida em que os comunistas forem capazes de reconhecer as raízes dos erros que cometeram, que livres da cegueira oportunista dos que defendem postos e só sabem ser comunistas na qualidade de dirigentes, sejam capazes de realizar uma verdadeira autocrítica — única arma de que dispomos para transformar os erros cometidos e as sérias deformações de que padece nossa organização, nos ensinamentos que nos permitirão construir o Partido político de que necessita a classe operária e nosso povo para conquistar a nova sociedade, livre da exploração do homem pelo homem e chegarmos a construir em nosso País a Sociedade Comunista.

Fonte: pcb.org.br

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