A Economia se primariza e os macacos tocam tambor

macacos

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

GGN – Noutra matéria, expliquei como se forma o estoque de capital, como ele se pode transformar em dinheiro e como inicia o modo capitalista de produção. Uma coisa é ler sobre isso, outra coisa é ver o fenômeno de perto. Para entender melhor, é preciso ter em mente que todos somos capazes de gerar excedentes, o que é a diferença entre o que se produz e o de que se precisa para viver. Suponhamos que um empregado seja capaz de produzir o equivalente ao seu salário em somente três dias de trabalho, só que ele trabalha por cinco, talvez, seis dias. O que acontece com o restante?

Trabalhar alguns dias para si, outros pelo senhor não significa que haja um sistema capitalista de produção. Durante a Idade Média, os servos podiam trabalhar dois dias para si e quatro pelo seu suserano, ficando o sétimo dia para descanso. Também era dessa forma que se dava a produção da Rússia anterior à Revolução de outubro. Para que haja capitalismo, é preciso que o trabalho seja assalariado, ou seja, troca-se o tempo do trabalhador por dinheiro e este tem a liberdade para decidir em que gastar o fruto de seu trabalho. Existem muitas outras condicionantes, como a propriedade dos meios de produção, mas essa é a principal porque tira dos ombros do senhor a obrigação de manter seus trabalhadores, como acontecia na escravidão. A questão é bem mais profunda do que pode parecer. Na escravidão, cabe ao senhor zelar pelas condições de vida de seus cativos. No capitalismo, pago o salário, o patrão se isenta de quaisquer obrigações. Alguns economistas chamam a diferença em dinheiro entre o que o empregado produz e o que ele recebe de taxa de exploração. Outros economistas chamam de produtividade do trabalho. Essa taxa, por si só, não representa piora nas condições de trabalho. Costuma ser justamente o contrário. Uma quebradeira de babaçu, por exemplo, por se tratar de trabalho braçal de baixo valor agregado, está exposta a uma taxa de exploração muito menor que um trabalhador da indústria de automóveis, em que o mais que se faz é controlar robôs. Ninguém discute que o empregado na indústria tem condições de vida infinitamente melhores que as mulheres que se dedicam a quebrar cocos por horas a fio.

Note-se que a intensidade do uso de capital não tem absolutamente nada com valor agregado estrito senso. Para o corte da madeira, por exemplo, pode-se usar motosserras, ou serras manuais, ou ainda, as moderníssimas máquinas apelidadas de “cabeçotes que, num só golpe, cortam o tronco e os põem posição para o transporte. Cada máquina dessas faz o trabalho de trinta homens, mas não agrega valor algum ao produto, pois tora é tora, independentemente de como saiu do campo e foi parar na indústria, pior ainda, num porto. É evidente que as máquinas são benvindas. O corte manual de toras com toneladas de peso é desumano, especialmente, considerando-se os riscos envolvidos. A questão é que, apesar da modernidade aparente, está-se amealhando menos de um terço do que se conseguiria exportando papel ou celulose. Numa situação assim, o país perde muito, mas os nossos trabalhadores perdem mais ainda, seja em número, seja em renda.

Transponha-se essa perda para o agronegócio como um todo, assim como à mineração, e teremos um quadro desalentador, em que o investimento retira empregos e contribui para a queda do valor relativo do que produzimos.

Nominalmente, a massa pode crescer – e realmente tem crescido no agronegócio brasileiro. O problema é que para aumentar a massa com menor agregação de valor, é preciso intensificar a exploração de nossos recursos naturais. Ninguém duvida de que o brasil, no que tange à agropecuária, dá show, usando um quinto do nível de fertilizantes e defensivos que, por exemplo, a Europa. Ocorre que, se produzimos mais em território menor, como não há milagre, algum recurso se está levando à exaustão, provavelmente a água, visto que é ela a base da fotossíntese. Enquanto nos exaurimos e nosso povo passa fome, macacos tocam tambor.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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