Os militares outra vez

Por: Sued Lima

Quando muitos já consideravam superada a fase histórica de intervenções militares em nosso país, eis que ressurgem as ameaçadoras evidências de retrocesso político marcado pela presença de generais designados para assumirem altos postos na administração federal, sem nada que os credencie para tais funções. Sua presença na ainda recente trajetória de ataque à democracia brasileira foi marcada por violências e vilanias, que atingiram milhares de cidadãos, custando-lhes a vida em centenas de casos.

Surge, então, uma questão de complexa resposta: seriam os militares de hoje mais democratas que os de 1964? Na tentativa de deitar um pouco de luz sobre o tema, cabe fazer uma visita ao passado não muito longínquo.

Tem-se, de início, que o período anterior ao golpe militar foi marcado pelo embate entre o segmento progressista (sim, havia um segmento progressista na caserna) das forças armadas de então e o grupo reacionário que lhe confrontava, bastante similar ao que ora detém a hegemonia castrense. Os pontos em comum do antigo e do novo são evidentes: a mesma postura entreguista, o mesmo desamor pelo povo, a mesma subserviência aos interesses do grande império e o estilo pressuroso em servir a uma das burguesias mais retrógradas do planeta.

A luta dos nacionalistas da década de 1950 para que a Petrobrás fosse criada foi épica e formidável. Os generais entreguistas alinhavam-se aos muitos traidores da pátria na arenga de pregar que o país não detinha capacidade técnica para explorar petróleo e que as reservas do país eram irrisórias. O tempo se encarregou de demonstrar a falácia de tais afirmações.

Na criação do Centro Técnico de Aeronáutica, célula mater da Embraer e do Centro de Lançamentos de Alcântara, colocaram-se em campos antagônicos os brigadeiros Eduardo Gomes, liderança ultrarreacionária, e o cearense empreendedor Casimiro Montenegro. O brigadeiro Montenegro venceu o embate, sem imaginar que, setenta anos depois, seu bem-sucedido plano de fazer o país dispor de uma pujante indústria, capaz de produzir aeronaves no estado da arte, seria destruído de forma tão vil, com o beneplácito dos atuais brigadeiros.

Para ampliar a semelhança de propósitos, também naquela época o Império exigia que nossas forças armadas se juntassem a ele para combater uma guerra covarde e criminosa na Coreia, modelo que se replica agora contra a Venezuela. O movimento militar nacionalista se impôs para obstar tal disparate, não sem o custo de repressão, prisões e torturas degradantes sofridas por incontáveis patriotas.

Um episódio pouco conhecido desnuda a sordidez dos golpistas de 1964. Jango tinha especial apreço pelo general Amaury Kruel, padrinho de um de seus filhos, que designara para o comando do II Exército, em São Paulo, semanas antes do desfecho do golpe. A nomeação desagradara profundamente um grupo de militares de baixa patente que se alinhavam na defesa do governo constitucional. Em sua última visita a São Paulo, Jango recebeu um grupo desses militares, quando lhe foi dito que a designação então feita golpeava a resistência ao motim que a reação montava. Um dos militares presentes chegou a reclamar com Jango que se tornava tarefa difícil lutar pelo seu governo, pois ele ora acendia uma vela a Deus, ora, ao diabo.

Veio a sedição e Kruel se alinhou à traição já na primeira hora. Anos depois, o coronel do Exército Erimá Pinheiro Moreira, diretor de uma organização militar de saúde, situada nas redondezas da rua da Consolação, na capital paulista, denunciou que o general recebera suborno de cerca de três milhões de reais (valor atualizado) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para que aderisse aos golpistas. A operação de entrega do dinheiro se deu na unidade militar comandada por Erimá.

A diferença entre militares de 1964 e os de hoje reside no fato de que não se identifica dissonância interna no que diz respeito ao desmonte dos bens nacionais ora em curso. O que é visível é a indiferença, quando não apoio explícito, à entrega das riquezas nacionais. E isso somente pode ser colocado na conta do processo alienante a que passaram a ser submetidas gerações de oficiais desde a formação, o que foi adredemente buscado pelos comandantes do ataque à democracia brasileira.

A rigor, os militares formados a partir de 1964 não podem ser responsabilizados pela mentalidade atrasada que lhes foi imposta na juventude, ao longo de anos de presença nos bancos escolares, em que se faziam presentes a omissão e a deturpação sobre fatos de nossa história. Faltou coragem aos governos petistas para desmontar esse sistema antinacional.

Enfim, Jango, com seus Kruels, e Lula, com seus Paloccis, não demonstraram estar à altura do jogo político em que viviam. E atuaram de maneira bisonha e irresponsável, em momentos decisivos de suas gestões.

Do PCB.org

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