A derrota da Alemanha nazi … apenas uma pausa para o fascismo

bandeira soviética

– A guerra da Otan na Ucrânia assim o demonstra
– Polícia da Alemanha, países bálticos e outros Estados europeus proíbem os cidadãos de exibirem bandeiras soviéticas em memoriais de guerra
– Mas apoiantes de fascistas ucranianos são autorizados a agitar bandeiras e assediar os que comemoram a derrota do nazismo
– “Não é hipérbole descrever Washington e os seus satélites ocidentais como o Quarto Reich”

A derrota da Alemanha nazi em 1945 provou ser apenas uma pausa numa luta histórica mais longa contra o fascismo. Estamos a ver essa luta a desenrolar-se na Ucrânia e com a agressão psicopática louca de Washington contra a Rússia.

Esta semana marcou o 78º aniversário da derrota da Alemanha nazi em maio de 1945. Se o demoníaco Terceiro Reich foi vencido, um monstro mais profundo não ficou morto. A Alemanha nazi foi apenas uma versão do fascismo imperialista ocidental, uma força que ressurgiu no pós-guerra com força total na forma dos Estados Unidos da América e seus vários clientes ocidentais.

Não é hipérbole descrever Washington e os seus satélites ocidentais como o Quarto Reich.

A aliança de guerra ad hoc entre a União Soviética, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e outros aliados ocidentais prontamente daria lugar à Guerra Fria, mesmo quando as cinzas da guerra mais destrutiva da história ainda estavam quentes. É estarrecedor contemplar a desonestidade aqui.

Essa reconfiguração do militarismo ocidental explica por que razão as Nações Unidas, criadas em 1945, se tornaram imediatamente uma paródia para as potências ocidentais lideradas pelos EUA e pelo eixo da Otan formado em 1949 com inúmeras guerras de agressão estrangeiras, desde a Guerra da Coreia (década de 1950) até a atual guerra na Ucrânia.

As origens da Guerra Fria em 1945 e do confronto atual na Ucrânia podem ser rastreadas até às relações secretas entre americanos e britânicos e o Reich nazi no final da Segunda Guerra Mundial.

Reimplantando a máquina de guerra nazi

Arquivos americanos desclassificados, entre outras fontes, atestam o recrutamento de dezenas de milhares de nazis, oficiais da SS e seus colaboradores assassinos, pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. O objetivo, em grande parte não expresso, era reimplantar os restos da máquina de guerra do Terceiro Reich contra a União Soviética.

Fascistas ucranianos que tinham participado ativamente na Solução Final nazi matando milhões de eslavos foram recrutados pelas potências ocidentais para fazer uma guerra por procuração atrás das linhas soviéticas. Assassinos em massa como Stepan Bandera e Mykola Lebed [1] foram protegidos pelas agências de inteligência americanas e britânicas para continuar o seu trabalho sinistro. O ex-chefe da espionagem nazi, major-general Reinhard Gehlen, foi designado para coordenar a guerrilha nazi ucraniana e báltica para travar uma guerra secreta contra a União Soviética. Estes são apenas alguns nomes de todo um exército clandestino de agentes e paramilitares destacados pelo Ocidente em toda a Europa nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Muitos deles foram treinados nos Estados Unidos para as suas missões terroristas de comando para sabotar as sociedades soviéticas.

Chefes de inteligência americanos no departamento de Serviços Estratégicos (OSS) [2] durante a guerra, como Allen Dulles e James Jesus Angleton, recrutaram conscientemente nazis na Europa para prosseguir a próxima guerra contra a União Soviética. Foram criadas linhas de fuga para garantir que os criminosos de guerra nazis escapassem da acusação e os serviços de inteligência ocidentais não apenas aproveitaram milhares de funcionários nazis, como também se apoderaram do ouro lucrativo e outros saques que o Terceiro Reich acumulou durante o seu reinado de terror. Esse dinheiro obscuro financiaria operações secretas realizadas pelos EUA em todo o mundo nas décadas seguintes, como David Talbot documentou no seu livro, The Devil’s Chessboard. Veja também o estudo fundamental de Christopher Simpson, The Splendid Blond Beast.

Aqui está uma lista meramente exemplificativa de golpes e estratagemas da CIA em todo o mundo que ligam os nazis à traição da Segunda Guerra Mundial: Itália (1948), Síria (1949), Irão (1953), Guatemala (1954), Congo (1960), Cuba (1961), República Dominicana (1961), Brasil (1964), Indonésia (1965) e Chile (1973). Não são acontecimentos ou datas isoladas. São uma sequência de uma tapeçaria imperialista americana de agressão mundial. E pode-se continuar aumentando a lista até a Ucrânia hoje.

Aliança do tempo da guerra: um expediente para afastar o rival nazi

Uma boa pergunta é por que é que as potências ocidentais se preocuparam em formar uma aliança de guerra com a União Soviética para derrotar o regime de Hitler? Afinal, a classe dominante e a elite financeira dos EUA e do Reino Unido foram fundamentais na construção da máquina de guerra nazi durante a década de 1930 com o propósito de derrotar a União Soviética e o comunismo em geral. Sem dúvida, o pacto de guerra foi um arranjo conveniente para o Ocidente se livrar do Reich alemão, que se tinha transformado num rival imperial incómodo. Havia também alguns líderes ocidentais, como o presidente Franklin D. Roosevelt, que eram genuinamente contrários ao fascismo e que, de fato, corriam o risco de serem derrubados por fações fascistas domésticas dentro do regime.

A traição do pós-guerra dos aliados ocidentais durante a guerra foi muito além do recrutamento de pessoal nazi. Fações dentro dos círculos dominantes ocidentais estavam a considerar ativamente o uso da bomba atômica recém-desenvolvida contra a União Soviética. O general Leslie Groves, que supervisionou o Projeto Manhattan, disse abertamente aos cientistas do Pentágono que o verdadeiro alvo da bomba era Moscou, não a Alemanha nazi como anunciado anteriormente. Também havia planos reais elaborados, como a Operação Unthinkable e a Operação Drop Shot para atacar preventivamente a União Soviética antes que ela desenvolvesse a sua própria arma atómica.

Assim, apesar das distorções mediáticas e academicas ocidentais e do glamour hollywoodesco, a Guerra Fria pode ser vista, com razão, como a continuação da Segunda Guerra Mundial. Os planos furtivos de atingir preventivamente Moscou com armas nucleares andaram de mãos dadas com a implantação no terreno de soldados nazis em toda a Europa. A União Soviética, que perdeu pelo menos 27 milhões de pessoas no que chama Grande Guerra Patriótica, estava obviamente ciente da iminente traição ocidental. Moscou viu como os chamados aliados da guerra estavam a fechar acordos com os nazis e a violar acordos para entregar criminosos de guerra. A Guerra Fria foi talvez a maior traição das potências ocidentais e um sinal indelével da sua profunda duplicidade e beligerância implacável.

Elites ocidentais criminalizam o Dia da Vitória

Quase oito décadas depois, em toda a Europa, esta semana foi ocasião de acontecimentos surreais. A Rússia realizou o seu desfile anual do Dia da Vitória contra a Alemanha nazi com a tradicional pompa e cerimonia, enquanto nos países ocidentais não houve grandes comemorações oficiais. A elite europeia, como a presidente da Comissão Europeia – e descendente nazi – Ursula von der Leyen prefere celebrar o recém-criado “Dia da Europa” e ignorar o Dia da Vitória. Na verdade, estão a ir mais além e a criminalizar aqueles que comemoram o Dia da Vitória.

Quão estranho é isso? Bem, só talvez seja estranho tendo em conta a falsificação de relatos e omissões da midia ocidental sobre a Segunda Guerra Mundial. Mas não é estranho para aqueles que entendem as intrigas imperiais mais profundas daquela guerra e as suas consequências sinistras.

De fato, vários eventos organizados por cidadãos em Estados europeus para comemorar o Dia da Vitória foram proibidos pelas autoridades. A polícia da Alemanha, dos países bálticos e de outros Estados europeus proibiu os cidadãos de exibirem bandeiras soviéticas em memoriais de guerra para homenagear a vitória do Exército Vermelho em Berlim. No entanto, nesses países, apoiantes de fascistas ucranianos foram autorizados a agitar as suas bandeiras e assediar as pessoas que queriam homenagear o Exército Vermelho e marcar a derrota do nazismo.

O presidente russo, Vladimir Putin, no seu discurso no desfile da Praça Vermelha, observou corretamente que está a ser travada mais uma vez uma guerra não declarada contra a Rússia. É verdadeiramente espantoso que isto esteja a acontecer na memória viva dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Para qualquer pessoa racional e moral, isso pode parecer chocantemente depravado. Mas se a natureza da besta imperialista e fascista for devidamente compreendida, então pode-se facilmente compreender que a besta deve ser alimentada com sangue e carne. É incontrolável, até ser morta.

O campo de batalha da Ucrânia numa guerra maior

O conflito na Ucrânia é apenas um campo de batalha numa guerra maior entre o eixo militar da Otan, liderado pelos EUA, e a Rússia. O mundo, como observou Putin, está noutra conjuntura histórica de implicações existenciais para o futuro do planeta e da vida na Terra.

Esta semana assistiu-se ao fornecimento de mais armas ao regime de Kiev pelas potências da Otan. Os EUA prometeram outros US$ 1,2 bilhões em armas (além de US$ 30-50 bilhões já entregues no ano passado); O Reino Unido anunciou o fornecimento de mísseis de cruzeiro de longo alcance capazes de atingir profundamente o território russo; enquanto o principal comandante militar da Alemanha, general Carsten Breuer, inspecionou as tropas ucranianas e fez considerações sobre uma contraofensiva antecipada. Todo o eixo da Otan está de fato em guerra contra a Rússia. Esta já não é uma guerra por procuração e caminha inexoravelmente para uma guerra total. O perigo de uma conflagração nuclear nunca foi tão patente, comparável à Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962. Não nos enganemos, a situação abismal foi criada por Washington e os seus clientes ocidentais a partir da sua recusa à diplomacia e ao diálogo sobre os acordos de segurança propostos por Moscou.

O odioso regime de Kiev, que chegou ao poder num golpe violento apoiado pela CIA em 2014, todas as semanas homenageia alguma figura nazi ou outra do passado, renomeando ruas em sua memória. O regime foi concebido em 2014 para se desenvolver como uma ferramenta de guerra contra a Rússia com as armas e os instrutores militares da Otan como revelou o chefe da Otan, Jens Stoltenberg, novamente esta semana numa entrevista à media.

Os americanos e britânicos recrutaram os remanescentes do Terceiro Reich no final da Segunda Guerra Mundial porque dentro das fileiras dos círculos dominantes ocidentais havia numerosos fascistas ou “excepcionalistas” que acreditam num direito divino de superioridade americana e domínio mundial. Essa é uma mentalidade que se tornou endémica em Washington. O OSS2 [Office of Strategic Services] americano, que deu origem à CIA em 1947 sob as ordens do presidente Harry Truman (o bombardeiro atómico de Hiroshima e Nagasaki), foi a personificação do fascismo americano, juntamente com o complexo militar-industrial (MIC) do Pentágono. A CIA, o MIC, os bancos de Wall Street e a elite corporativa do capitalismo americano representam o estado profundo ou corporativista que é o fascismo. O processo eleitoral não passa de uma folha de parreira da “democracia”. O mesmo pode ser dito para a maioria dos Estados ocidentais e as suas eleições falsas. O poder real reside numa oligarquia não eleita. Em suma, os Estados ocidentais são inerentemente fascistas com um verniz de democracia, como batom num porco.

A CIA usaria a sua experiência nazi adquirida juntamente com os britânicos para aterrorizar o mundo com assassinatos, golpes e guerras nas décadas subsequentes da Guerra Fria. A elite fascista americana chegou a assassinar um dos seus próprios presidentes, John F. Kennedy, em 22 de novembro de 1963, devido às suas crescentes intenções pacíficas com a União Soviética e a sua recusa em aceitar um ataque nuclear preventivo contra Moscou, como exigiam o general Curtis LeMay e outros chefes do Pentágono.

Por que o suposto fim da Guerra Fria não trouxe paz

Essa continuidade de décadas na história fascista explica por que o suposto fim da Guerra Fria em 1991, há mais de três décadas após a dissolução da União Soviética, não levou a uma maior paz e segurança nas relações internacionais.

As potências ocidentais fascistas lideradas principalmente pela elite dominante dos EUA não podem estar em paz com o resto do mundo porque o seu sistema de imperialismo capitalista é baseado na hegemonia e domínio total. Essa condição fundamental da desigualdade nas relações humanas tem ser sustentada pelo militarismo, pela agressão, pelo terrorismo de Estado e pela guerra.

A derrota da Alemanha nazi em 1945 provou ser apenas uma pausa numa luta histórica mais longa contra o fascismo. Estamos a ver essa luta a desenrolar-se na Ucrânia, e com a agressão psicopática de Washington contra a Rússia, China, Irão e qualquer outra nação que não se curve em subserviência aos seus ditames.

Não admira que as elites ocidentais nem sequer pretendam agora celebrar o Dia da Vitória. Não significa nada para elas. Elas traíram não apenas o povo russo, mas milhões de cidadãos ocidentais que também deram as suas vidas em sacrifício para derrotar o nazi-fascismo.

NT
[1] Mykola Lebed liderou um grupo nacionalista ucraniano que participou no assassinato de judeus e polacos no oeste da Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial. Após a guerra, de acordo com o relatório, Lebed foi recrutado pela inteligência dos EUA para executar operações de guerrilha contra a União Soviética.
[2] O Departamento de Serviços Estratégicos (em inglês Office of Strategic Services; abreviadamente, OSS) foi o serviço de inteligência dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. É tido como precursor da Agência Central de Inteligência (CIA).

Fonte: Strategic Culture Foundation

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